Concelho

José Vale: Partiu um ícone da imprensa feirense

 | 
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on Pinterest

Por Calor Fontes:

 

Pouco passava do meio da manhã da passada quinta-feira quando sinto o telemóvel vibrar. Atendo. Do lado de lá escuto a voz do director deste jornal.
“Morreu o José Vale. Você, que o conheceu bem e com ele privou, podia escrever qualquer coisa sobre ele. Ele foi um dos grandes da imprensa do Concelho da Feira, mas não só…”, dizia-me, Vitor Hugo Carmo.
Pois é, Vitor. Pediste-me aquilo que eu não queria que alguém me pedisse. Mas compreendo…
Conheci, como poucos, o José Vale. O José Augusto Vasconcelos Vale, para os amigos o Zé Vale, e para aqueles que com ele privaram diariamente nas redações de O Primeiro Janeiro e do Norte Desportivo, o Zé Cavalinho.
Nascido em Mirandela, cedo o Zé Vale rumou a Vila da Feira. Aí cumpriu a “primária»” na antiga vila, completou o secundário.
Já aí o jornalismo se meteu com ele. Ou ele se meteu com o jornalismo. Em 1959, quando iniciei a minha “cumplicidade” com ele, atraiu-me para o Correio da Feira, com o qual já mantinha colaboração regular. Foi o começo de uma amizade que foi interrompida na quinta-feira passada.
Estivemos juntos alguns anos como funcionários dos Serviços Municipalizados da Feira. Ali o Zé, além de cumprir a sua missão como funcionário, animava a malta com piadas e anedotas. Alguns, como eu, lembram-se de como ele colocava “alegria no trabalho”. Que o digam, porque felizmente ainda estão entre nós, entre outros, o Domingos Leite, o Orlando Oliveira, o Joaquim Matias e o agora “algarvio”, o fianense, Joaquim Marques. O Zé era um amigo…um grande amigo.
Ainda nos Serviços, o José Vale como jornalista já colaborava com o já desaparecido Mundo Desportivo – nomeou-me, depois de obter o sim de David Sequerra, que ele conhecia bem pelas suas andanças no futebol português dos mais jovens, colaborador do jornal, para cobrir os jogos do Lusitânia de Lourosa – e ambos nos embrenhamos (1963) no Notícias da Feira, que Manuel Laranjeira, sobrinho-neto do poeta, resolveu publicar.
Em 1965, José Vale chegou ao “O Primeiro de Janeiro”. Chegou a um grande jornal. À data, o maior entre os maiores. O Janeiro era uma grande escola. O Zé chegou…e cedo se impôs como grande jornalista. Antes, além da colaboração que manteve com o Mundo Desportivo, ainda fez uma incursão pelo antigo Diário do Norte.
Mas chegado ao Janeiro, o tempo foi de “assentar”. E assentou. Manteve-se no jornal durante décadas. Acompanhei-o, no jornalismo (fora dele, sempre) até 1990, altura em que nasceu “O Público”.
O Zé, no Janeiro, foi grande. Cedo chegou a chefe da Secção Desportiva, e não tardou a guindar-se a Chefe de Redação.
Com as lágrimas nos olhos dizia-me, na quinta-feira passada, quando soube da morte do amigo Zé Vale, Bruno Neves, responsável pela fotografia do Janeiro de então: “O Zé Vale era um gajo porreiro… amigo. Andava sempre com um sorriso nos lábios. Mas quando o chateavam… Um dia o diretor (Freitas Cruz) queria que ele fosse cobrir a Volta a Portugal, em ciclismo. Ele acedeu, mas exigiu que eu fosse como fotógrafo. O director não estava pelos ajustes. Mas ele acabou com a questão: se ele não for, eu também não vou. Fomos os dois”, revela, Bruno Neves, hoje com 84 anos mas, como ele diz, “com uma memória de elefante”.
Ainda, apesar de continuar no “O Primeiro de Janeiro”, José Vale criou (fevereiro de 1979) um mensário regional: o “Líder”, do qual era director, cabendo-me a mim a chefia da redação. O projecto não teve pernas para andar. Teve vida curta: seis meses! Nem ele, porque continuava no Janeiro, nem eu, porque navegava noutras águas, tínhamos tempo para manter um jornal.
Sempre no Janeiro, Zé Vale ainda foi diretor durante dois anos do “Terras da Feira” – substitui-me na direção após a minha demissão – até que a decadência do diário portuense, motivada pela entrada da política na direção, e da saída de escudos do jornal para a política, entrou em fase acelerada. Foi o fim de José Vale no ex-grande jornal, “O Primeiro de Janeiro”.
A reforma, merecida, chegou. O Zé Vale deixou de ser presença tão assídua entre a malta dos jornais. Paços de Brandão monopolizou a sua presença. Mas a malta nunca o esqueceu. Sempre que se encontravam ex-trabalhadores do Janeiro, alguém perguntava: “o que é feito do Zé Vale?”.
Quinta-feira, dia 8 de fevereiro, o Zé Vale ausentou-se. Mas não nos deixou.
Um amigo, um grande jornalista, nunca nos deixa. Ausenta-se…
Descansa em paz, Zé Cavalinho!