Concelho

Ultramar: relatos feirenses

 | 
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on Pinterest

São dois feirenses e são naturais de Vale. Separa-os um ano de idade. Albano tem sessenta e sete e Licínio sessenta e seis anos. Junta-os o facto de serem cunhados, mas não só. Ambos participaram na Guerra Colonial Portuguesa durante dois penosos anos, desde 1973 a 1975. No entanto, em países diferentes. Albano esteve em Angola, Licínio em Moçambique. Realidades distintas? Nem por isso, pois ambos contam as mesmas histórias. De terror, fome, trabalho, dureza. Foi-lhes roubada a adolescência. Foi-lhes roubado o prazer de viver a liberdade do seu país. Foram-lhes cortadas as asas.
Hoje sentem-se “trapos”. Deitados fora por um governo que “não os apoia”. Por um governo que, outrora, mandou os seus homens combaterem contra a independência das suas colónias. Muitos morreram.
Os que sobreviveram agora, quando fecham os olhos, facilmente regressam ao local de onde parece que nunca voltaram e alguns ficaram com traumas de guerra, outros seguiram a vida, sem nunca esquecer aqueles anos.
“Não temos nenhum apoio do governo, nem sequer qualquer tipo de comparticipação no hospital militar”, referem os ex – militares.
De regresso à África de 1975 Licínio e Albano “atropelam-se” para responder às questões colocadas. Porque as lembranças são muitas e porque é preciso transmitir tudo, numa urgência de valor. De se valorizarem os nossos, que serviram o país. Mas que, segundo os próprios, parece que “já não servem mais”.
A comida era muito pouca. Passaram muita fome. “Só não faltava tabaco e vinho. Isso havia com fartura”, diz Licínio. A “ração de combate”, por vezes, não servia “nem para os animais”. Naquela altura o medo é muito. O contacto com as civilizações é raro. Vivem isolados e sempre alerta, porque nunca se sabe quando o perigo espreita.
“Vila da Feira”, nome porque era conhecido Albano, conta que o que de melhor trouxe daqueles anos foi a amizade e companheirismo dos camaradas, do seu batalhão de madeirenses.

Leia mais na edição impressa do Jornal N.