Música

Crónica: JP Simões, as flores e os seus 1001 refrões

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Cantor português trouxe “Tremble like a Flower” ao Cineteatro António Lamoso

A noite estava fria, introduzida na atmosfera tradicional do Inverno. À entrada do Cineteatro António Lamoso, em Santa Maria da Feira, os carros preenchiam de forma trivial a avenida, quase como vultos inseridos, à pressa, numa rotina diária que pede o abraço quente da lareira, à noite. A escassos momentos do concerto, as palavras eram trocadas, cá fora,  entre um cigarro e uma nuvem de fumo, ora proveniente da nicotina, ora da temperatura. Fala-se, pensa-se e incorre-se na tentativa de antecipar aquela que iria ser a dinâmica trazida por JP Simões, compositor e letrista português, à casa onde as Artes feirenses se abraçam, circunscrito à iniciativa À4HÁ. Assim começava o serão da passada quarta-feira, dia 23 de Janeiro. À medida que o relógio se aproximava das 22h00, os corpos faziam caminho para a sala, o Foyer. Para os receber, estavam várias mantas e almofadas rigorosamente distribuídas pelo chão, convidando ao repouso, ao conforto, ao desembargo das preocupações. É certo que a música pode ser utilizada como antídoto, remédio e porta escapatória para outros lugares distantes, idílicos, mas aqui, antes da música chegar, o cenário já o era. Não obstante, JP Simões trouxe na leve bagagem o seu mais recente trabalho, “Tremble like a Flower”, e o Cineteatro foi o “jardim” ao seu cuidado (e que cuidado, esse) por uma hora e meia de música, deambulações, pareceres e incontáveis histórias.

Foi já devidamente acomodado que o público teve a primeira visão do artista. De um dos extremos do palco, começava-se a adivinhar uma silhueta: alta, delgada mas, acima de tudo, convidativa. Pé ante pé, e entre os vários presentes, JP Simões construía o seu caminho, de forma cuidadosa, delicada, até àquele que viria a ser o seu palco. E quão seu o foi. Ouviu-se uma voz, quase um sussurro, atirado para o ar, no acaso momentâneo. O timbre era reconhecível e, simultaneamente, estranho. JP Simões saudava o público, com um “boa noite” tremido e tímido, que teimou em sair. Mas, por isso, não menos sincero. No seu discurso inicial, e tirando vezes com o pseudónimo que actualmente encarna, “Bloom”, disse “não saber muito bem definir” o seu mais recente disco. As definições, rigorosas, exactas e, grande parte das vezes, limitativas, não existem. Não há linhas para definir, o que não quer, necessariamente, dizer, que não existam pontos a serem conectados. “Mas foi feito com muito amor e carinho” – dizia o artista. Não parece existir maior e mais relevante definição que esta. A mais recente aventura de JP Simões por entre as paisagens, jardins e flores toca nos mundos do Folk, do Blues, do Jazz, junta-lhes uma dose de melancolia, uma outra de dedilhados e de acordes bem sonantes, uma mensagem intemporal, confissões e pedaços arrancados da linha do tempo que é a vida, e os resultados estão à vista. Motivado por uma guitarra velha, encontrada em casa de um amigo, “afinada em Ré”, JP Simões “floresceu”. Como chavão, e repetido, na primeira música, ouvia-se, em inglês que “o caminho é solitário, e o vencedor leva tudo consigo”. O caminho de JP Simões nunca será solitário. Em cada verso há um calor, e em cada melodia há uma nova viagem por fazer, por memórias comuns, de vivências individuais. Nos entretantos, ia dando justificações para o caminho que a sua carreira hoje segue. Não que estas tenham sido “pedidas”, como brincou, mas porque a razão acompanha, de mão dada, aquilo que mais é prezado na vida. “Estava farto daquilo que fazia antes, a certo ponto a minha música tornou-se muito lamurienta” – avaliou. As faixas tocam em submundos “complicados”: desde a amizade existente na base e no cerne de uma relação amorosa, à partida de um amigo de infância para o Brasil (num hino à juventude), a ligação afectiva a lugares físicos (como é o caso da cidade de Évora, onde o seu filho reside), paixões mal sucedidas e a cor que novos amores trazem. São temas individuais, fruto de uma árvore cujos ramos se prolongam a cada vivência própria, mas à sombra da qual todos vivemos, inevitavelmente.

 

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