É possível retirarmos ensinamentos muito bons do tempo que vivemos.

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“É possível retirarmos ensinamentos muito bons do tempo que vivemos. Será uma outra quaresma, bem diferente da que estávamos habituados, para que a Páscoa seja uma verdadeira festa de família”

Pároco José Carlos Ribeiro avalia o tempo pascal, em entrevista

A pandemia do novo coronavírus provocou alterações em várias das esferas que compõe a sociedade como a conhecemos, e a vertente espiritual não ficou indiferente a esta nova realidade. Em entrevista, o Pároco José Carlos Ribeiro, que tem ao seu encargo as paróquias de São Miguel de Souto, Mosteirô, Pigeiros, Santa Maria de Lamas e Gião, debate os novos desafios impostos à Igreja pela pandemia, assim como a vivência e o significado do período pascal que, no ano presente, teve de ser forçosamente vivido de forma distinto.

 

Que alterações existiram este ano na celebração do tempo da quaresma, entre os dias 26 de Fevereiro e 9 de Abril?

A quaresma, como tempo de preparação para a Páscoa, é um convite pela oração, pela penitência e pelo jejum, a renovarmos a nossa atitude e a nossa condição de crentes enquanto cristãos. Este ano, a quaresma foi interrompida, naquela que são as suas habituais tradições e ritmos, pelas restrições legais civis com as quais temos de colaborar, para ajudar na preservação da saúde de todos. A quaresma não foi vivida com o ritmo litúrgico e celebrativo habitual. Teve de ser vivida de forma extraordinária e através de meios alternativos.

 

Na sua opinião, qual é a principal mensagem que se poderá extrair deste período?

A quaresma tem variadíssimas mensagens e lições possíveis de perceber. O centro da vivência cristã está exactamente na celebração da palavra de Deus, que é muito rica na sua mensagem. É das ‘leituras’, como normalmente lhes costumamos chamar, que podemos extrair muitas lições para esta grande preparação que a quaresma nos propõe. As grandes mensagens que daqui se poderão extrair estão relacionadas com a nossa renovação como cristãos, na forma de estar, de viver, de entender a vida e o Mundo que nos rodeia. Toda esta caminhada quaresmal nos deve ajudar numa renovação de atitude e a uma renovação de energias para que possamos abraçar a fé. Este tempo pascal deve ajudar quem é cristão e quem tem fé a transportar para a vida aquilo que celebramos na vivência deste tempo forte: o Cristo sofredor, é a experiência que fazemos no sofrimento; o Cristo ressuscitado, é a glória a que estamos chamados.

 

A própria Semana Santa e as tradições que lhe são características foram celebradas de forma atípica…

Sim, é verdade. Estamos muito marcados pelas tradições, até porque as mesmas nos auxiliam a estabelecer ritmos de vida. Este ano, a Semana Santa e o Tríduo Pascal ocorreram sem celebrações públicas, e obviamente que uma grande parte das pessoas que habitualmente até gostavam de viver estas celebrações não teve oportunidade de o fazer. Contudo, existem meios alternativos: quer pela televisão, quer pela internet, numa recriação da possibilidade de aproximação e encontro, que nos leva a uma outra forma de viver a espiritualidade característica destes dias. Claro que nem todos terão a mesma capacidade de acesso, e acaba por ser muito diferente a nossa presença ou participação nas celebrações pelos meios digitais. De qualquer das formas, a proposta da fé é a mesma. Os modos de a celebrar é que são diferentes, fruto das contingências que nos afectam a todos.

 

Considera que a Igreja soube reagir às restrições de confinação social impostas?

Sim, a Igreja soube reagir ao momento que atravessamos. Não nos esqueçamos que ninguém estava preparado para uma situação destas: quer no campo da fé, quer no campo social. Apanhou-nos a todos de surpresa. Evidentemente que diante da surpresa, a primeira reacção é a de espantou ou confusão, mas logo de seguida se começa a pôr em prática a criatividade, a reinvenção de processos.  Através de canais Youtube, ou por meio de outras vias de comunicação, os padres, também no concelho de Santa Maria da Feira, tentaram estabelecer contacto e manter a unidade paroquial. Também no campo da catequese se procurou criar dinamismo e intercomunicação entre os catequistas e as crianças, no sentido de se promover a capacidade de comunicação, da caminhada da fé, em conjunto. Estão a ser vários os meios pelos quais, a nível paroquial, se procura criar possibilidades e oportunidades de chegar até às pessoas. Essa criatividade e essa capacidade de reacção tem existido do lado da Igreja, face à situação actual. À medida que o tempo vai avançando, vamos melhorando as técnicas e a tecnologia, criando uma comunicação mais facilitada com todos.

 

Acredita que as famílias precisavam também deste tempo para se reencontrarem?

 O isolamento permite que tenhamos mais tempo uns para os outros, porque o ritmo social era tão intenso e acelerado, que muitas famílias viviam até algo confusas: eram desconhecidos dentro da própria casa. Este tempo obriga a que as pessoas estejam juntas, e estando juntas têm necessariamente de reaprender a conviver, a respeitar-se e a estar. Este tempo ajuda a cultivar a afectividade pela disponibilidade, pelo tempo presente, pela partilha das refeições. Acredito que é possível retirarmos ensinamentos muito bons do tempo que vivemos. Será uma outra quaresma, bem diferente da que estávamos habituados, para que a Páscoa seja uma verdadeira festa de família.

 

De que forma é que os cristãos são convidados a viver a Páscoa?

A Páscoa é a celebração da paixão, morte e ressurreição do Senhor. É o cerne, a essência da vida Cristã. Estas celebrações, este tempo e esta vivência da Páscoa não é escutar a narração dramática de um acontecimento triste que se deu há dois mil anos. Como cristãos que somos, é vivermos, experimentarmos e renovarmos a nossa vida, como discípulos, debruçando-nos naquela que é a mensagem do Mestre. Por isso, nesta hora, à luz dos episódios do acontecimento da Cruz, percebemos que o sofrimento é uma realidade da humanidade. Aliás, o Papa teve uma expressão muito bonita. Lembrando um provérbio antigo, disse: “Deus perdoa sempre, o Homem perdoa às vezes, e a Natureza nunca”. Tudo isto é uma reacção da Natureza, estamos sujeitos àquela que é a fragilidade da nossa condição humana, e Jesus, ao morrer na Cruz, experimentou e associou-se à própria fragilidade da natureza humana. É neste contexto que ao lermos a paixão do Senhor, e ao meditarmos nessa prova extrema de amor, que percebemos que estamos diante de um desafio muito grande. Para um crente, não é mais fácil libertar-se do contágio. Estamos tão vulneráveis como quem não tem fé…

 

No entanto, a crença traz outro alento…

 Sim, com a luz da fé e com a força que daí advém, olhamos para esta realidade com outra coragem, com outra capacidade. Temos mais um instrumento de auxílio para enfrentarmos a nossa debilidade. Como cristãos, e animando-nos uns aos outros, fazemos por um lado a experiência que Jesus viveu na Cruz. Há inclusive uma espécie de oração de desolação de Jesus na Cruz, o salmo 22, onde ouvimos a interrogação  “Meu Deus, porque me abandonaste?”. No entanto, logo no salmo seguinte, proclama-se a confiança no Senhor, o nosso Pastor. Isto é uma grande lição para o tempo actual: estamos a fazer a experiência de um acontecimento que é desolador, que nos faz sofrer, que nos faz sentir abandono. Mas, por outro lado, diante da situação, percebemos que somos chamados a ser homens de coragem, a enfrentar a realidade e a tentar ultrapassar tudo isto. Acredito que as pessoas, um povo de esperança, irão reagir positivamente a esta situação. Aliás, já vemos isso, quase de forma embrionária, mas as pessoas não estão resignadas à doença. Pelo contrário.  Estão a reagir ao contágio para o vencer. Esta será a grande postura: vencer