Emídio Sousa: Temos que guardar na nossa memória coletiva, o trabalho extraordinário que todos fizemos

Quando no início do ano de 2020 a pandemia Covid-19 se disseminou no planeta, encontrou a sociedade humana mundial despreparada. O período de confinamento representou um esforço monumental por parte das instituições, dos indivíduos e respetivas famílias. O isolamento não só quebrou a regularidade dos laços e das ligações sociais em copresença e proximidade física, como gerou um conjunto de processos disruptivos decorrentes do confinamento e do prolongamento de um conjunto de restrições sociais e cívicas.

Quisemos falar com o Presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, Emídio Sousa, para conhecer melhor as dificuldades que a autarquia enfrentou, como as superou e o que de marcante ficou deste fenómeno que apanhou toda a gente de surpresa.

 

Jornal N – Que mudanças ocorreram no seio da autarquia?

 

Emídio Sousa – Tivemos que reorganizar-nos completamente. Repensar os postos de trabalho. Tomar medidas de segurança para evitar a contaminação. Ao nível do funcionamento do executivo, de forma a evitarmos uma contaminação alargada, procuramos nunca estar juntos fisicamente, realizando as reuniões de câmara em streming.

Toda a estrutura teve que alterar o seu modelo de trabalho. Muitas das reuniões foram realizadas no exterior. O medo era tremendo. Houve uma adaptação total na organização, mas conseguimos manter a câmara municipal sempre em funcionamento. Tínhamos a consciência de que eramos um serviço público que tinha que estar disponível. Não podíamos parar!

Para além do funcionamento interno da autarquia, foi preciso cuidar das relações externas com diferentes entidades. Os nossos serviços garantiram o transporte de alimentação e medicamentos. Articulamos sempre com os bombeiros, com as forças de segurança e, sobretudo, com as equipas de saúde. Vários profissionais de saúde foram afetados. De seis médicos do serviço de saúde pública, ficamos com apenas um. Era necessário ajudar os lares. Temos mais de três dezenas de instituições dedicadas aos mais idosos. Tivemos, desde o início, a convicção de que não podíamos falhar, e conseguimos!

 

 

Quais os departamentos que sentiu serem mais afetados?

ES – A divisão que foi chamada de imediato para a “frente de combate” foi o serviço da proteção civil, mas todos os sectores foram afetados no seu funcionamento com os utentes.  Em determinada altura as escolas fecharam, e outros serviços quase encerraram, isto é, houve serviços onde, normalmente, estavam 10 funcionários e funcionaram com dois. Tivemos que recorrer ao teletrabalho sempre que possível.

Os serviços da proteção civil, devido à necessidade de resposta que lhes foi exigida foram, de facto, os mais solicitados. Eram, habitualmente, cerca de cinco ou seis pessoas em permanência. No entanto, toda a estrutura humana da câmara se mobilizou para ajudar. Eu costumo dizer que, em qualquer momento, a proteção civil fica com 500 pessoas. É possível mobilizar toda a gente, e foi isso que aconteceu. Era comum, por exemplo, ver o vereador da educação a tratar de um assunto logístico. Toda a câmara se mobilizou num propósito comum.

É preciso não esquecer a ação social, nomeadamente todas as pessoas que lidavam diretamente com os lares e os centros de dia. Foi igualmente um trabalho intenso.

 

Relativamente à ação social, de que problemas teve conhecimento?

Temos uma rede de ação social muito bem estruturada, o que nos permitiu estar preparados para as dificuldades. Os problemas registaram-se, essencialmente, com os idosos. Houve momentos críticos. O isolamento, o afastamento dos filhos, das famílias e o medo. A resposta da ação social da autarquia foi muito boa.  Os nossos professores de educação física – monitores no programa “movimento e bem-estar”, que é um projeto que promove o exercício físico junto dos mais idosos-, impossibilitados de trabalhar, trataram de manter-se a par do estado dos mais idosos via telefone. Criamos, inclusive, o projeto “Abraços à janela”, que teve como principal objetivo amenizar a falta que os idosos sentiam das visitas familiares. Íamos lá com o acordeão e tocávamos umas modinhas para animar os mais velhos.

 

Considera que as assimetrias ficaram mais visíveis com esta pandemia?

Sim, podemos dizer que no que diz respeito ao sistema educativo as assimetrias se acentuaram. Muitas vezes, as famílias mais carenciadas têm poucos meios para responder a situações de emergência, como foi o caso da COVID-19. Nomeadamente na pouca preparação dos pais para ajudar as crianças. Já na classe média, os pais têm uma preparação diferente e podem, de alguma forma, mitigar a falta que a escola faz. Sendo a escola um fator de elevação social, e potenciadora de um maior equilíbrio nas sociedades, é natural que a sua ausência provoque assimetrias. No entanto, creio que terá sido genérico, e não apenas em Santa Maria da Feira.

No que diz respeito aos rendimentos das famílias e das empresas, houve sectores que foram muito afetados, nomeadamente a restauração, hotelaria e o sector cultural e artístico. Foram dois anos de paralisação que levaram a uma perda enorme de rendimentos. Os nossos eventos ficaram congelados durante dois anos! Só por aí se vê a dimensão da privação financeira. Naturalmente que o nosso movimento associativo também foi afetado, uma vez que muitas das associações do concelho fazem uma boa parte da sua receita anual nos nossos eventos.

 

A forma como as instituições e as pessoas organizam as cidades está em transformação?

Tenho dúvidas. É evidente que uma situação de isolamento, com diferentes pessoas a trabalhar ou a estudar num apartamento pequeno, é diferente de um confinamento numa casa, onde o espaço é, quase sempre, maior. No entanto, uma casa tem outros custos. Já percecionar a cidade com zonas verdes e espaços de fruição exterior, é algo que acredito vir a acentuar-se.

Investimos muito nessa área, mesmo antes da pandemia. Foi sempre um projeto nosso proporcionar espaços de exterior, de fruição da natureza. Uma forma de incentivar as pessoas a irem para a rua. Atualmente temos a Ciclovia da Feira – Percurso Urbano do Cáster, e a ciclovia que está a ser construída entre Feira e Lourosa. Temos ainda o Parque das Ribeiras e os passadiços do rio Uíma. São planos que temos bem presentes neste novo conceito de viver as cidades. Um urbanismo que tenta conciliar a vida e o trabalho com o espaço exterior. Com isso promovemos também estilos de vida saudáveis. Os passadiços, as ciclovias não são apenas uma forma de usufruir da natureza. Têm também uma componente de saúde física e mental associada.

 

O sector artístico e cultural, como disse, foi um dos mais afetados pela COVID-19. Houve alguma política de apoio?

Sim, fizemos um programa específico de apoio. Permitimos o reagendamento de alguma programação que já estava criada. Desenvolvemos projetos on-line para permitir que os artistas continuassem a trabalhar.  Ao mesmo tempo, também os ajudamos na candidatura a apoios estatais na altura existentes. Estivemos sempre ao lado do nosso sector artístico.

 

A epidemia foi, segundo os especialistas, de grande impacto na violência nas relações de intimidade. Teve conhecimento deste tipo de situações no concelho?

Não tenho informações que me possam indiciar problemas do género, mas admito, de uma forma absolutamente não factual, que possam ter acontecido. De qualquer forma, estaríamos preparados, na medida em que temos disponível o Espaço Trevo, que é totalmente dedicado a esses casos.

 

A pandemia vai alterar a atuação da câmara, ou irá seguir com o que estava já pensado/alinhado?

Iremos prosseguir com o planeado, embora eu admita que possam ocorrer pequenas alterações nos nossos hábitos. O uso da máscara, por exemplo, que não era comum entre nós, irá passar a ser mais frequente, nomeadamente em época de constipações.

 

Alguma coisa mais que gostaria de dizer?

Acho muito importante dizer que as instituições do nosso território foram absolutamente extraordinárias na sua capacidade de resposta. Quer instituições públicas, quer privadas, o combate fez-se com dezenas de milhares de heróis. Desde os profissionais de saúde, aos profissionais da proteção civil, bombeiros, à Polícia, GNR; desde o porteiro, até aos funcionários das IPSS’s que estiveram 15 dias sem irem a casa para evitar contaminações. Ninguém imagina o sacrifício que implicou. Falamos de pessoas que, com salários baixos, se dedicaram em exclusivo à causa dos mais velhos. Tenho um absoluto orgulho e respeito por todas as pessoas que foram capazes de superar os medos, porque a pandemia metia verdadeiramente medo! No início todos achávamos que se fossemos contaminados tínhamos que ser hospitalizados, e corríamos o risco de morrer. Quero destacar essa coragem coletiva que superou a empregabilidade e o salário. A coragem de solidariedade humana foi o que mais me marcou em todo o processo. A maior lição de todas.

 

Alguma coisa o dececionou durante a pandemia?

Há sempre alguma coisa, mas são tão pequenos os factos negativos que não vale a pena falar deles. Temos que guardar na nossa memória coletiva, o trabalho extraordinário que todos fizemos.