Ensino à distância: Câmara irá financiar internet e emprestar computadores a estudantes mais carenciados

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O Mundo mudou e moldou-se com a chegada do novo coronavírus, e a Educação não foi excepção. Com o encerramento dos estabelecimentos de ensino, os alunos trocaram a sala de aula pelo quarto ou escritório de casa. As aprendizagens, à semelhança da realidade que afectou tantos outros sectores, passaram a ser feitas com e à distância. O concelho de Santa Maria da Feira é algo particular neste âmbito e no panorama nacional. Os primeiros casos positivos de Covid-19 conhecidos dentro dos limites fogaceiros foram precisamente na comunidade educativa, na Escola Secundária de Santa Maria da Feira, o que obrigou a Autarquia a uma resposta mais “imediata” e “assertiva”. Em entrevista, Cristina Tenreiro, vice-presidente da Câmara Municipal e vereadora do pelouro da Educação, traça um balanço dos comportamentos e medidas tomados até ao momento. Acredita que em Maio seja possível o regresso à escola para estudantes do décimo primeiro e décimo segundo ano, se a curva nacional continuar a seguir o sentido de um “planalto”. E faz também saber que a Autarquia irá levar internet a famílias mais desprovidas de recursos, e proceder ainda ao empréstimo de computadores que, no final do período previsto de três meses de Ensino à distância, terão de ser devolvidos, mas que prometem “não deixar ficar ninguém para trás” – aquela que tem sido a “principal” preocupação do Município.

 

Como classifica a reacção da comunidade educativa ao aparecimento dos primeiros casos positivos de Covid-19?

A comunidade educativa feirense teve uma resposta excelente: uma resposta rápida, assertiva e ponderada. Foi ao encontro das necessidades quer dos alunos, dos pais e até dos próprios professores, o que acabou por acalmar e sensibilizar toda uma comunidade. Enquanto tudo se encontrava ainda algo atordoado nos territórios em volta, em Santa Maria da Feira acabou por acontecer: registamos o primeiro caso na Escola Secundária de Santa Maria da Feira, que tem bastantes alunos, mexe com bastantes famílias, e portanto este caso recebeu desde logo muita atenção. Os diagnósticos que foram sendo traçados à estudante revelavam um panorama algo complicado. Tudo isto fez com que passássemos à acção: a Escola foi encerrada, tendo sido aliás das primeiras a sê-lo.  Tivemos também em atenção a questão dos planos de contingência em todos os agrupamentos. Todas estas acções permitiram uma mudança de comportamento em toda a comunidade educativa. A resposta foi mesmo muito pronta, imediata. Rapidamente mudamos de atitudes para estarmos preparados a enfrentar esta pandemia que, uma semana depois de registarmos o nosso primeiro caso, começaria infelizmente a crescer desenfreadamente. Não fomos por arrasto: estávamos já na linha da frente. Fomos os primeiros a fechar piscinas, parques, jardins. Tudo de uma forma muito serena e calma.

 

Analisando a situação à posteriori: considera que a decisão do encerramento das escolas foi tomada no timing certo?

Olhando para trás, a o timing de encerramento das escolas parece-me correcto. Foi tomada essa decisão quando estavam a ser sinalizados os primeiros casos positivos, e ainda se conseguiu controlar as linhas de transmissão, que é algo bastante relevante. Decidimos seguir por este caminho antes que o próprio vírus se disseminasse pela comunidade. Foi algo que deu tempo, até, ao nosso Serviço Nacional de Saúde, para se preparar. Quando entramos na fase da mitigação, já existiam respostas em todas as estruturas para acolher os doentes positivos de Covid-19. O encerramento das escolas neste timing funcionou como um travão: permitiu que o vírus não se propagasse rapidamente por toda a comunidade. Também o próprio Estado tem tido medidas assertivas e rápidas neste âmbito, e sempre com a preocupação de ganhar tempo, para  que as pessoas reforcem a sua consciência para o problema que enfrentamos, mas sem amedrontar. Tudo tem sido implementado na premissa do bom senso, quer em termos de saúde pública, quer em termos de cidadania e postura. Registamos uma semana de interregno: o Estado só encerrou as escolas passada uma semana desde o registo do nosso primeiro caso, mas aí já todos estavamos preparados. Durante duas semanas, as escolas também rapidamente arranjaram mil formas de dar respostas a todos os alunos e de preparar o ensino à distância. E fizeram-no através da internet, e em casos de famílias em que não fosse possível estabelecer o contacto pelo meio digital, foram enviadas cópias das fichas e trabalhos para as Juntas de Freguesia, para que as crianças pudessem aceder aos conteúdos lectivos na mesma, não ficando de fora. Ao fim de 15 dias, chegamos a tudo e a todos, garantindo a igualdade de oportunidades aos nossos alunos.

 

Foi importante tranquilizar as preocupações dos próprios encarregados de educação?

Sim, foi, e existe também a questão da disponibilidade dos recursos, que é algo que presenciamos com a questão do uso ou não da máscara, por exemplo. Todos nós temos plena consciência que a máscara é um equipamento de protecção relevante, mas há 15 dias atrás não tinha lógica as estruturas estarem a dizer que se deveria usar máscara, se as mesmas não existiam no terreno, onde eram realmente prioritárias. Penso que temos sido um exemplo ao nível europeu, e espero sinceramente que continuemos com esta postura assertiva perante esta pandemia. Portugal tem de estar orgulhoso da postura que tem tido nesta guerra. Foi uma tarefa árdua, sem dúvida. Estamos a viver momentos únicos, momentos que não possibilitam qualquer tempo para preparação prévia. Estavamos livres das pandemias. É certo que estudamos as pestes na escola, mas o facto é que ninguém estava preparado para este tipo de situação. Temos estado a dar respostas de uma forma exemplar, e sinto muito orgulho de todas as iniciativas que o concelho de Santa Maria da Feira tem dinamizado de uma forma serena. No meio deste caos, as pessoas sentem-se algo seguras, precisamente por saberem que existe uma autoridade de saúde que está no terreno a batalhar este vírus, e que o próprio Município tem trabalhado nesse sentido, assim como a comunidade educativa. Estamos todos a reaprender a viver.

 

Acredita que os estudantes de 11º e 12º ano possam regressar às actividades lectivas presenciais, como está previsto?

 Acredito que sim, que será possível. Se a nossa curva continuar neste sentido de “planalto” e se os nossos dados continuarem a ser como têm sido nestes mais recentes dias, acredito que possam regressar. Falamos apenas dos alunos que vão ter exame, num ensino que será parcial, e onde nunca existirá cumprimento total dos horários, que serão ajustados às respectivas disciplinas. Em termos de casos positivos e até de mortalidade, ambas são muito diminutas nesta faixa etária. Neste caso específico, até diria que o maior grupo de risco serão os próprios professores, pela sua faixa etária, que já não é tão jovem como gostaríamos que fosse. Com um número reduzido de horas, com as condições sanitárias devidamente controladas e com uma nova postura comportamental, acredito que será possível. Nem que sejam apenas aulas para tirar dúvidas, para os estudantes que serão submetidos a exame. Para os restantes anos, será ensino à distância. Se os nossos números continuarem a seguir a lógica recente, não vejo esta ideia com maus olhos, e será até uma forma de começarmos a retomar a normalidade do nosso dia a dia.

 

Que feedback é que a Autarquia tem recebido durante este período?

À Câmara, como já se sabe, chega sempre um pouco de tudo, do mau e do bom. No entanto, a principal queixa que temos ouvido nestes tempos mais recentes tem sido precisamente a de excesso de trabalho: os pais veem os filhos com muitas fichas, muitos exercícios. Acredito também que para as famílias com mais do que um filho não seja fácil gerir os materiais e o próprio tempo. Mas estes sinais de “excesso de trabalho” que tem chegado até nós são também eles sinais de uma grande vitalidade. Conseguimos ir ao encontro das pessoas e continuamos a cumprir com as nossas tarefas. É lógico que, como em qualquer outra situação em que as pessoas sejam confrontadas com a novidade, existe alguma ansiedade associada a todo este processo. Falava-se tanto de que a Escola precisava de mudar, de assentar sobre novos moldes, e vejo neste período uma sincera oportunidade. É um desafio para toda a comunidade educativa, mas que nos trará imensas respostas para o futuro.

 

Qual é o maior desafio que a Educação actualmente enfrenta?

 O maior desafio, na minha opinião, prende-se com o facto de o próprio aluno ser o construtor da sua  aprendizagem. Vai ser ele a construir o seu conhecimento. É lógico que continuará na mesma com o apoio e respectiva orientação do professor, mas vai ter que forçosamente mostrar mais autonomia. Isto vai ser algo muito interessante e enriquecedor para o próprio estudante. Como vai ser ele a parte mais activa da aprendizagem, logicamente que terá de saber utilizar outras plataformas e munir-se de outros meios para esclarecer as próprias dúvidas. As aprendizagens certamente serão bem mais diversificadas e enriquecedoras. Poderemos estar a assistir a um verdadeiro ponto de viragem no ensino, e tenho as minhas dúvidas se a Escola alguma vez voltará a ser aquilo que era.

 

Os encarregados de educação acabam por ter um papel de supervisão reforçado nesta conjuntura…

Sim, é verdade. Este é um tempo que, mais do que nunca, apela à supervisão atenta das actividades lectivas por parte dos encarregados de educação. No meio desta pandemia e desta desgraça que nos rodeia e transtorna, acredito que o momento actual acabará também por reforçar os laços familiares.  Vivemos com um ritmo alucinante, existia um distanciamento enorme entre pais e filhos, e a conjuntura actual veio obrigar a que estes laços se renovassem. O próprio mercado de trabalho tem lições a tirar disto: está-se a constatar que há imensas tarefas que podem perfeitamente ser efectuadas a partir de casa, e que isso poderá trazer mais felicidade às pessoas e também mais tempo para os próprios filhos e para a família. Hoje, mais do que nunca, restringimos o contacto físico, mas tomamos em atenção certos aspectos que tomávamos como garantidos, e há outra atenção principalmente para as crianças e para os idosos. É certo que ainda sentimos a falta do tacto, mas as ligações são mais fortes, e não deixa de  ser interessante esse acompanhamento dos pais às tarefas escolares dos filhos.

 

Que planos municipais existem para que as disparidades entre os vários alunos sejam colmatadas?

 A nossa grande preocupação, do Município e dos Agrupamentos, é que ninguém fique para trás. De imediato tomamos a decisão de assumir os custos de internet. Nesse sentido, faço também saber que a Autarquia irá proporcionar internet a todos os alunos e também iremos assegurar o empréstimo de computadores até ao final do ano, preferencialmente para os alunos de escalão A, de forma a garantir que em todas as casas exista pelo menos um computador. No entanto, estamos conscientes de que isto não chega. Esta até será a parte mais fácil. O mais difícil será garantir a monitorização com os psicólogos, Juntas de Freguesia e até directores de turma, para aqueles agregados mais fragilizados terem o devido acompanhamento e apoio nas suas necessidades. Este é o grande trabalho que tem de ser feito nas comunidades. Temos  um foco também centrado nos estudantes do décimo segundo ano, que estão nesta fase que se avizinha de candidatura ao acesso ao Ensino Superior: não podemos deixar que desmoralizem. Vamos ter muitas famílias com alterações na sua estrutura futuramente, também, e é importante não esquecer isso. Vão existir famílias em que os dois pais ficaram empregados, outras em que apenas um ficou, outras em que infelizmente nenhum ficará, e os rendimentos poderão reduzir drasticamente. Há vários factores novos que vão surgir nesta fase, que é importantíssima no percurso académico destes jovens, e temos de saber estar muito atentos e presentes, para os fazer acreditar que novos dias virão. Dias com mais luz, com mais energia, certamente.

 

Que mensagens e ensinamentos é que a Educação poderá levar daqui para o futuro?

 Não só a Educação, como todos nós podemos retirar várias mensagens da conjuntura que vivemos. A primeira, é a de que todos importamos. Juntos somos mais fortes, e unidos certamente conseguiremos ultrapassar todas as adversidades. Penso que a sociedade civil sairá reforçada de tudo isto, mais solidária, mais disponível e propensa a olhar para o lado, mais unida.