“Os números vão aumentar muito e, por isso, a capacidade de resposta dos serviços de saúde será fundamental”

Share on facebook
Share on google
Share on twitter
Share on linkedin

Emídio Sousa, Presidente da Câmara Municipal, realizou uma leitura sobre a pandemia de Covid-19 no concelho feirense e estima que “os números vão aumentar muito”. Para o edil, a realidade em Santa Maria da Feira é “muito mais exigente” dado o número de utentes e dos lares residenciais para idosos existentes. No que diz respeito às consequências do novo vírus no território, “que é grave” e que terá “fortes impactos” nas empresas e na economia, o autarca expressa a sua confiança na capacidade de “resiliência, dinamismo e empreendedorismo” dos empresários, assim como nos feirenses que caracteriza como “gente de garra”.

 

Face a esta nova pandemia, como descreve a realidade atual do município de Santa Maria da Feira?

Efetivamente, estamos a viver um momento particularmente difícil, dramático mesmo, não apenas no território de Santa Maria da Feira, mas em todo o País e no Mundo. A nossa realidade é semelhante à de todos os municípios, mas muito mais exigente. Somos 140 mil habitantes, temos 28 lares residenciais para idosos, aos que acrescem os privados, num total que ascende os 600 utentes. Se acrescentarmos os idosos dos Centros de Dia ou com apoio domiciliário, estamos a falar de mais de duas mil pessoas. Temos ainda os casos de internados em Unidades de Cuidados Continuados, Cerci’s, entre outras instituições. Estamos atentos, encetamos e reunimos todos os esforços possíveis (e muitas vezes quase impossíveis) e adotamos as medidas que nos parecem as mais adequadas no combate a este inimigo invisível, para garantir a segurança da nossa população, nomeadamente a sua saúde e segurança. São várias as medidas que tomámos e continuamos a tomar, dia-a-dia, para minimizar a propagação do novo coronavírus. Avançámos com a desinfeção das ruas e locais de maior afluência em todo o concelho. Nesta ação, e por forma a chegar mais rapidamente a todas as freguesias, contámos com o apoio das Juntas de Freguesias, fornecendo-lhes os produtos e equipamentos necessários. Disponibilizámos duas linhas de apoio à população – a Linha de Apoio Psicológico e a Linha de Apoio Social – que, nesta altura difícil, pretendem colmatar algumas situações de fragilidade e angústia, mas também sinalizar e encaminhar para os serviços competentes, as situações que assim o exigem. É mais uma “ferramenta” para estar em contacto com a população e acompanhá-la. Procuramos, desde o início, prevenir ao máximo as possibilidades de contágio com o encerramento de todos os equipamentos municipais, suspensão das atividades culturais, desportivas e complementares à ação educativa; suspensão de feiras e encerramento dos mercados municipais; implementação do teletrabalho e de soluções concretas de atendimento não presencial nos serviços municipais, bem como soluções de retaguarda para todos os profissionais que asseguram os serviços essenciais e alojamento digno para os profissionais de saúde que estão neste campo de batalha. Temos preparadas respostas para os idosos que vivem em lares residenciais, pois é aqui que está um dos maiores desafios desta Pandemia: temos já um lar residencial de reserva para acolher idosos, em Santa Maria de Lamas; atualmente, o Inatel e vários hotéis estão preparados para receber idosos dos lares que não estejam infetados, caso se venha a tornar necessário; incumbimos os lares de idosos de adaptarem as suas instalações por forma a separarem os utentes infetados dos não infetados e para prepararem ainda equipas de reserva, caso os seus profissionais venham a ficar infetados e, por isso, inoperacionais. Estamos a preparar equipas de retaguarda para a eventualidade de terem que substituir os atuais funcionários, em caso de contaminação. O Europarque está igualmente a ser preparado para a eventualidade de ter de vir a servir de retaguarda ao Hospital S. Sebastião, no acolhimento de doentes. Estamos, portanto, em permanente avaliação de toda a situação e, em conjunto com as entidades locais e regionais, adotaremos todas as medidas necessárias.

Quantos casos confirmados da Covid-19 existem até ao momento?

Neste momento e de acordo com os dados disponibilizados pela DGS, estão confirmados 136 doentes de COVID-19 (até às 24:00 de 28 de março), no concelho de Santa Maria da Feira.

Que perspetiva há sobre estes casos confirmados?

É um cenário que antevíamos e para o qual nos procuramos preparar. Penso que os números vão aumentar muito e, por isso, a capacidade de resposta dos serviços de saúde será fundamental. É uma pandemia que ataca todos e mesmo os profissionais de saúde têm sido muito afetados, diminuindo, muitas vezes, a sua capacidade de resposta. O desinvestimento dos últimos anos no Serviço Nacional de Saúde não devia ter acontecido, mas infelizmente aconteceu, diminuindo agora a nossa capacidade de resposta. Só com o profissionalismo, abnegação e brilhantismo dos nossos profissionais de saúde tem sido possível dar uma boa resposta. Mas isso são contas e responsabilidades que devemos fazer mais tarde. Agora temos que lutar todos da melhor forma e ao lado uns dos outros.

O primeiro caso no concelho foi assinalado na Escola Secundária da Feira, tendo daí resultado a infeção de um professor, de uma aluna e da sua mãe. Tem alguma informação sobre como se encontram os mesmos?

A informação que dispomos é a de que ambos já ultrapassaram o problema e, neste momento, depois do tratamento efetuado, tiveram alta e encontram-se bem, felizmente.

Uma vez que o concelho de Santa Maria da Feira possui uma forte presença industrial, num território com tantas fábricas e onde grande parte continua a laborar, não pode isto representar um fator de risco, caso surja algum caso nas unidades fabris, tal como foi noticiado na “Central de Lobão” ?

Será sempre um fator de risco, caso não se adotem as medidas de segurança necessárias. No entanto, de grande parte destas unidades fabris e dos seus trabalhadores depende a nossa economia que não pode parar totalmente; a cadeia de fornecimento dos serviços essenciais não pode ser quebrada, não só pelas questões económicas, mas por serem essenciais à sobrevivência. É a estes trabalhadores e tantos outros de retaguarda que deveremos estar também gratos. Temos estado na linha da frente do combate à doença, mas todos temos que estar conscientes que o dia a seguir vai ser terrível e que as empresas terão de ser a principal resposta à recuperação económica e do emprego. Não tenhamos ilusões. Vamos passar tempos muito exigentes e temos que ter também o foco no futuro da economia e do emprego.

No âmbito da ação social, que medidas têm vindo a ser tomadas para ajudar as famílias?

É ao Governo que cabe a principal responsabilidade nesta área de intervenção, a ação social, que disponibilizou já um pacote de medidas de apoio às famílias. Ao nível municipal, estamos a preparar um conjunto de medidas, nas áreas que são da nossa competência, e que oportunamente divulgaremos. Temos que ser muito cuidadosos, ponderados e criteriosos para que as medidas a adotar sejam totalmente justas.

A oposição tem apelado à redução ou até mesmo eliminação de certos impostos municipais nesta fase. Acha que tal será concretizável?

Como disse temos que ser ponderados e justos e nem sempre vejo isso nas propostas das “oposições”. E digo “oposições” porque há, de facto, partidos de oposição, que têm tido um comportamento exemplar neste momento difícil, e outros com comportamentos populistas e demagógicos lamentáveis. Dou como exemplo: conheço casos de municípios que já decidiram não cobrar as rendas da habitação social. Esta medida pode ser de uma tremenda injustiça se pensarmos que uma grande parte dos inquilinos desses bairros são beneficiários do Rendimento Social de Inserção, reformados ou funcionários públicos e para nenhum destes grupos está prevista, para já, a diminuição dos rendimentos. Talvez tenhamos que nos preocupar muito mais com os trabalhadores que vão perder o emprego ou diminuição do salário, com os comerciantes cujo negócio encerrou, com os que trabalham a recibo verde ou por conta própria em pequenos negócios que agora deixaram de ser viáveis. Da minha parte, podem ter a certeza que o que decidirmos será ponderado e procuraremos ser justos.

Ao nível da proteção civil, o Município possui os meios necessários para fazer frente a esta pandemia?

Atualmente, dispomos dos meios necessários para o cenário atual no concelho, o que não significa que numa evolução repentina e dramática não passemos a sentir maiores dificuldades. Como forma de acautelar toda e qualquer situação, e encontrando-nos numa fase de mitigação da COVID-19, no dia 27 de março, às 14:00h, foi ativado o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil garantindo, caso necessário, a mobilização de todos os recursos públicos, mas também os recursos privados existentes no nosso território, para o combate a esta pandemia. A ativação deste Plano de Emergência vem complementar todas as medidas municipais em curso, adotadas desde 11 de março, em consonância com as recomendações da Direção Geral de Saúde. O Centro Operacional de Comando está instalado no Europarque e assume um papel central na coordenação e gestão centralizada de toda a ação e apoio aos agentes de proteção civil, às comunidades, às entidades e aos profissionais de saúde do nosso concelho, estando a sua coordenação operacional sob a minha responsabilidade. Continuamos a trabalhar ao minuto para procurar fazer o melhor, numa altura particularmente difícil e nova para todos.

Pela proximidade com o concelho de Ovar, Vila Nova de Gaia, Porto, entre outros municípios que apresentam um maior número de infetados, existe algum tipo de receio que este se possa alastrar até Santa Maria da Feira?

Esta questão não me faz muito sentido. Estamos numa região com uma forte atividade económica, muito industrializada, com uma fortíssima internacionalização, pelo que o que acontecer num Município vai naturalmente acontecer em todos. As nossas fronteiras municipais são uma mera organização administrativa porque quanto ao resto somos totalmente contíguos, permeáveis em termos de mobilidade e idênticos. Ser de Santa Maria Feira, Ovar ou de Gaia é sermos todos das Terras de Santa Maria, essas sim muito semelhantes em tudo. E somos todos portugueses. E ainda bem que assim é.

Qual é a realidade do dia a dia dos profissionais de saúde feirenses e dos que trabalham no Hospital São Sebastião?

É, como em todo o país, uma realidade dramática. A falta de meios e equipamentos para dar resposta às atuais necessidades e o cansaço são a realidade com que estes profissionais se deparam no dia a dia, de norte a sul do país. Da nossa parte, criámos, desde o primeiro momento, condições de retaguarda para os profissionais de saúde, nomeadamente soluções ao nível das refeições, alojamento digno e também de ocupação dos seus filhos até aos 12 anos. Dada a escassez de meios generalizada e as dificuldades sentidas por todos os agentes de proteção civil, nomeadamente pelos profissionais de saúde do CHEDV, temos vindo a adquirir continuadamente equipamento de proteção individual para os profissionais de saúde. Em articulação com todos os presidentes de Câmara dos seis municípios da AMST – Associação de Municípios das Terras de Santa Maria, adquirimos também ventiladores para o Centro Hospitalar. Nunca é demais a nossa palavra de agradecimento a todos os profissionais de saúde que têm tido um papel fundamental no combate ao novo coronavírus.

Até ao momento, qual é o balanço do centro de rastreio no Europarque?

O Centro de Testes à COVID-19 instalado no Europarque foi mais uma medida estratégica que implementámos, fundamental para identificar e isolar casos positivos. O Centro funciona atualmente com seis postos (quatro para atendimento prioritário para utentes referenciados pela Saúde Pública – género Drive-Thru – e dois para atendimentos a utentes do SNS e de instituições privadas). No pós entrada em funcionamento deste centro de rastreio, notámos um aumento de casos Covid 19 confirmados no concelho, contudo, estaria muito mais preocupado se os possíveis casos não estivessem a ser diagnosticados. Estou consciente que temos que testar muito mais populações e tenho vindo a sensibilizar as autoridades de saúde para essa necessidade. O balanço, por isso, é positivo.

Quantos testes têm sido realizados, em média, por dia?

Até ao final do dia 28 de março (dados disponíveis a altura da realização da entrevista) foram realizados 728 testes. Tirando os dois dias iniciais de funcionamento têm sido realizados uma média de 100 testes/dia.

Como classifica a conduta/comportamento da população feirense até ao momento? 

Tenho verificado que, de uma forma geral, os feirenses, têm respeitado as indicações da DGS, e apelo, uma vez mais, que o continuem a fazer pelo bem de todos. Registou-se uma ou outra exceção, que foi identificada e resolvida pelas forças de segurança.

Para quando está previsto o pico deste novo vírus no concelho?

Ninguém consegue avançar com previsões. A realidade de hoje, já não será a de amanhã. Como refere regularmente a DGS, a pandemia está a ser avaliada diariamente. Centramo-nos, portanto, no Hoje e hoje estamos a atravessar uma fase bastante complicada, de mitigação do novo coronavírus, de contágio comunitário. É de suma importância que não se facilite e que se cumpram todas as recomendações da DGS, protegendo-nos e protegendo os outros.

Por último, quais poderão ser as dimensões previstas da expansão da Covid-19 no município feirense e, no âmbito económico, que custos poderá representar este surto para Santa Maria da Feira?

Que é grave, ninguém dúvida, que terá fortes impactos nas empresas, e, consequentemente, na economia, também não. Não conseguimos, para já, prever a dimensão dos efeitos nefastos que esta pandemia terá na sociedade, no geral, e na economia, em particular. Tenho acompanhado com grande atenção, as legítimas preocupações dos empresários do nosso concelho, que se debatem diariamente com o suprimento de matéria prima, a dificuldade no escoamento dos seus produtos e com os compromissos financeiros a cumprir, mas também dos seus trabalhadores. A nossa economia vai ter de aprender a viver com esta situação. Nós estamos disponíveis, como sempre estivemos, para ajudar e levar as suas preocupações a outro patamar de decisão, à Administração Central. A informação é muita e veiculada ao minuto e, por isso, disponibilizámos uma Linha de Apoio, assegurada por cinco funcionários em permanência, para esclarecer e apoiar todos os empresários do concelho, sem exceção. Mesmo nesta altura, têm sido muitos os empresários que se tem mostrado disponíveis para ajudar neste combate, contribuindo solidariamente com doações para as diversas entidades do Estado que atuam na área da saúde pública ou, no ramo hoteleiro, respondendo prontamente ao meu pedido para apoiar os profissionais de saúde, disponibilizando condições dignas para o seu merecido descanso, sem se afastarem do Hospital. Estou confiante na capacidade de resiliência, dinamismo e empreendedorismo que os nossos empresários sempre demonstraram, encontrando as melhores soluções para contornar as adversidades. Os feirenses são gente de garra e, em conjunto, vamos ultrapassar este momento difícil para todos e continuar a trabalhar para que possamos afirmar que Santa Maria da Feira é um concelho bom para viver e trabalhar.