25 de Abril: Voz, liberdade, imprensa

Estávamos a 25 de Abril de 1974 e um grupo de jovens capitães levou a cabo um golpe de Estado que, em menos de 24 horas, derrubou a ditadura que dominava Portugal há mais quatro décadas. Em breve, o golpe resultou numa revolução que, durante quase dois anos, agitou o país, abrindo um amplo leque de possibilidades quanto ao caminho a seguir. A fase conspirativa foi relativamente breve, dando lugar a um rápido processo de politização do Movimento. Os sinais de que o fim do regime estava iminente, perante a sua intransigência em manter o esforço de guerra, adensaram-se a partir de inícios de 1974. A originalidade da transição portuguesa foi, de imediato, assinalada pela imprensa internacional. A 6 de maio de 1974, a Newsweek chama a atenção para o facto de os portugueses sempre terem revelado uma “maneira muito sua” de fazer “as coisas”, utilizando como exemplo o facto de “mesmo aquele sangrento espectáculo ibérico, a tourada”, adquirir em Portugal “uma característica especial, cavalheiresca, pois o touro nunca é morto”. Todos os que, desde fora, observaram a evolução política portuguesa em 1974-1975 são unânimes em assinalar a sua excecionalidade. Os 19 meses de revolução são pródigos em acontecimentos: três tentativas frustradas de ‘golpe’ de Estado; seis governos provisórios; dois Presidentes da República; a intervenção dos militares na política; as alianças que os seus diversos sectores estabelecem com diferentes grupos políticos e movimentos sociais; a acção dos partidos e movimentos políticos; as nacionalizações e o desencadeamento da reforma agrária; as experiências de controlo operário e autogestão; a multiplicação das iniciativas populares; os casos República e Renascença e toda a turbulência que percorre o campo dos media; a desconfiança das potências ocidentais de que Portugal se transformasse num cavalo de Tróia da NATO; o debate sobre a essência do socialismo português, permitindo a coexistência de experiências e concepções radicais com projectos políticos mais tradicionais que apontavam para a instauração de uma democracia parlamentar de tipo ocidental ou, então, para um modelo estatizante, inspirado na experiência soviética; o peso esmagador da política que inunda as ruas, os quartéis, as fábricas, os campos. Todas as possibilidades estavam em aberto, sendo que, no final, esta foi “a Revolução possível e lúcida” (Eduardo Lourenço).

Passados que estão 50 anos sobre a revolução de Abril, o N foi ouvir a opinião de múltiplas figuras da nossa comunidade no sentido de ficarmos a conhecer melhor a sua perspectiva sobre o tema, sobre a comunicação social regional passados 50 anos sobre o 25 de Abril.

Aos nossos leitores perguntamos:

O que representa para si o 25 de Abril?

Passados 50 anos sobre o 25 de Abril, como encara o papel da comunicação social regional?

Maria Manuel Cruz, presidente da Câmara Municipal de Espinho

Sendo filha de um militar então destacado para a guerra colonial, naquele momento, o 25 de Abril representou imediatamente uma enorme esperança de normalização de vida para a minha família e para as milhares de famílias afetadas pela guerra colonial. Por outro lado, a liberdade e a igualdade (em todos os seus sentidos) eram conquistas que a sociedade de então evidenciava como necessárias e urgentes e, talvez seja isso, ainda hoje, a Revolução dos Cravos representa para mim: a demonstração de que conquistas como a democracia plena, a liberdade e a igualdade entre todas as portuguesas e todos os portugueses, são um processo ainda por terminar e que urge aprofundar constantemente. Como autarca, por outro lado, não posso deixar de evidenciar a enorme conquista (também ela permanentemente em risco) que foi a autonomia do poder local e a aproximação democrática e por meios democráticos das decisões sobre as políticas locais aos cidadãos.

 

Leia as restantes opiniões na nossa edição impressa.

 

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