Trio de jovens de Fornos une-se para combater a “pobreza envergonhada” em tempo de pandemia

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Acção solidária já contribuiu para a melhoria das condições de vida de sete famílias da freguesia

 

INICIATIVA

 

É comum dizer-se que o melhor de cada um vem “ao de cima” nos momentos mais adversos, e a história de Sofia Rodrigues (24 anos), Joana Santos (24 anos) e Patrícia Rodrigues (27 anos) comprova o ditado. O trio de jovens amigas, natural de Fornos, uniu-se, em tempo de pandemia, para ajudar a combater a pobreza envergonhada existente na freguesia, tendo já distribuído sorrisos por sete famílias, e a intenção é a de continuar, caso os pedidos de auxílio continuem a existir. Com a contribuição da comunidade local, dos familiares mais directos e também de amigos, as jovens têm conseguido preencher e distribuir cabazes solidários de cariz pontual, sendo que posteriormente estudam a realidade de cada uma das famílias proponentes, encaminhando-as e funcionando como um elo de ligação, para que as mesmas consigam um auxílio mais constante. Em entrevista ao Jornal N, Sofia Rodrigues recorda o nascer da ideia e deixa um apelo: para que as pessoas se organizem, sejam sensíveis à realidade circundante e ajudem.

 

De que forma é que esta ideia de cariz solidário começa a ser elaborada?

 

Esta iniciativa surgiu de uma forma muito espontânea. Já nos tinha surgido uma ideia semelhante no confinamento anterior. Inicialmente, pensamos em pegar em coisas nossas que tivéssemos em casa e às quais já não déssemos uso para contribuir para a melhoria das condições de vida de uma das famílias da freguesia.

 

No entanto, não avançaram no imediato…

 

Não. Na altura não chegamos a avançar com qualquer acção, e durante este confinamento voltou-nos a surgir essa mesma ideia, mas com outra forma de pensar associada. Percebemos que as três, mesmo com a ajuda dos nossos familiares mais directos, não conseguiríamos ajudar os outros simplesmente com aquilo que tínhamos e já não nos fazia falta. Até porque percebemos que, com a chegada deste segundo confinamento, o número de pessoas e famílias necessitadas seria maior. Decidimos então apostar num pedido de ajuda mais aberto, a toda a comunidade, e focadas na freguesia de Fornos. Somos pessoas muito envolvidas na comunidade local, conhecemos bem a realidade da freguesia e temos bastantes contactos que nos auxiliaram nesta jornada.

 

Qual era o vosso objectivo principal?

 

A nossa intenção principal era a de chegar às pessoas que não têm mesmo qualquer ajuda, o que nem sempre é fácil, já que existe muita pobreza envergonhada, escondida. Começamos, então, por traçar um plano que nos ajudasse a abrir este “caminho” até estas pessoas e famílias.

 

E como é que começam a dar passos concretos no sentido de o concretizar?

 

Começamos por falar com pessoas conhecidas, perguntando-lhes se conheciam alguém que precisasse de ajuda, e pedindo-lhes que fossem passando a mensagem de que nós estaríamos dispostas a ajudar. Posteriormente, decidimos optar também pela via do Facebook, até porque actualmente estamos todos confinados, e não é tão fácil passar a mensagem “boca a boca”. Foi assim que fomos chegando às pessoas.

 

Em que momento estabelecem contacto com as várias famílias sinalizadas?

 

Numa segunda fase, entramos em contacto directo com as famílias que chegaram até nós, e tentamos sobretudo traçar um retrato da situação, conhecê-las, conhecer as suas maiores necessidades. As nossas várias contribuições foram entregues sob a forma de bens alimentares, bens de higiene ou vestuário. Organizamos tudo isso numa lista, debate-mos esse apontamento entre nós, partilha-mo-la com os nossos contactos mais directos e também no próprio Facebook, ou em grupos da comunidade.

 

É recorrente ouvir-se que os jovens se encontram tendencialmente mais desligados dos problemas sociais, e até das suas origens. O vosso caso contraria este paradigma…

 

Sim. Acredito que hoje em dia ainda exista esse pensamento de que os jovens estão desligados destas questões sociais e até solidárias, mas a verdade é que existem muito jovens atentos. E esta atenção, a um nível local, ainda me parece mais fundamental. No nosso caso, desde sempre nos mantivemos muito ligadas à freguesia, e acredito que esta iniciativa serve também como um sinal disso mesmo, de que há quem ainda continue atento. Devo também referir que conversamos com muitos amigos nossos, da nossa faixa etária, e recebemos muitas contribuições oriundas de jovens. Isto realmente prova que os jovens estão envolvidos.

 

Quantas famílias já ajudaram, até ao momento presente?

 

Temos tudo registado, apontamos todas as pessoas que ajudamos, e garantimos sempre o anonimato. Até ao momento, ajudamos sete famílias. Neste momento, não temos mais famílias para ajudar, mas continuamos aqui prontas para responder, se algum novo caso chegar até nós. Aquilo que gostamos de frisar também é que esta nossa ajuda é pontual. Depois de auxiliarmos uma determinada família, vamos falar com as pessoas, e tentamos aconselha-las para que consigam um apoio mais constante, dando-lhes a conhecer os vários caminhos possíveis a seguir. Tentamos funcionar como um elo de ligação entre estas duas realidades.

 

Quais foram os bens mais requisitados, entre os vários cabazes distribuídos?

 

Produtos alimentares como o leite, por exemplo, foi algo que nos foi bastante requisitado. Como recebemos pedidos de ajuda de pessoas que têm crianças, também necessitamos de fraldas, e tivemos muita ajuda neste campo, pessoas que foram comprar de propósito, conseguimos uma ajuda fantástica neste campo. Produtos como o arroz, massa, feijão, também foram muito requisitados. No fundo, alimentos que compõe normalmente a nossa cesta de mercearia básica. Muitas vezes, só o facto das pessoas não terem que gastar dinheiro nestes produtos já lhes permite investir noutro tipo de necessidade. Tudo acaba por ser uma grande ajuda. Só não apostamos mesmo na recolha de produtos frescos, por exemplo, por exigirem condições específicas de conservação e entrega.

 

Actualmente, não têm conhecimento de mais famílias carenciadas. No entanto, se surgirem novas situações num futuro próximo, continuarão cá para responder?

 

Neste momento estamos paradas, por não nos ter chegado nenhum pedido novo de ajuda. Mas se surgir, estamos dispostas a avançar novamente, com novas acções. Nunca saberemos se será possível uma adesão tão boa como desta primeira vez. Acredito que nos tempos futuros, os efeitos negativos desta pandemia serão ainda mais óbvios, e poderão surgir mais famílias a necessitar de ajuda, se calhar não agora, mas num futuro muito próximo. Por isso, gostaria de  deixar um apelo.

 

 

Que apelo seria esse?

 

A todos, para que se conhecerem algum caso, nos façam chegar a informação, e cá estaremos.

Gostava, acima de tudo, de deixar uma mensagem de encorajamento. São precisas mais iniciativas como esta. Nós não somos nenhuma organização, nenhum movimento, nenhum projecto, não temos nome. Somos simplesmente três amigas que perceberam que a situação estava má, e tentamos arranjar forma de contribuir para uma melhoria. E conseguimos. Assim como nós o fizemos, gostava de encorajar outros a avançarem. Muitas vezes, os nossos vizinhos passam por dificuldades e nós nem nos apercebemos. E lembrar sempre que hoje somos nós a ajudar, mas que um dia podemos precisar também de ser ajudados.