“O Partido Socialista é um partido vencedor e quando entra, em quaisquer eleições, é sempre para vencer”

Assumiu a função de presidente da Comissão Política Concelhia (CPC) do Partido Socialista de Santa Maria da Feira em fevereiro de 2020. Na tomada de posse, previa-se uma reunião com os militantes socialistas eleitos nas freguesias do concelho, a respetiva vereação, os eleitos da Assembleia Municipal e ainda a presença do deputado da Assembleia da República, José Luís Carneiro; contudo, face à situação pandémica, não foi possível concretizar-se “a grande festa socialista”. Márcio Correia, em entrevista, aborda os assuntos mais prementes do concelho feirense – como o empréstimo superior a um milhão de euros à Feira Viva, a aquisição da Sociedade de Turismo local e os impactos resultantes da situação pandémica. O presidente da CPC do PS de Santa Maria da Feira afirma ainda que o PS “é um partido vencedor” e que, em 2021, vai “entrar para vencer”.

Qual é o mote principal que pretende transmitir à força socialista de Santa Maria da Feira?

Nas eleições de janeiro de 2020, o Partido Socialista deu uma mostra de unidade. Foi uma lista única, onde houve a convergência de várias ideias e projetos num único plano de atividades e estratégia. Isso deu o mote para que se possa trabalhar de forma unida, sólida e construtiva para o concelho. Temos um PS experiente e, ao mesmo tempo, renovado com as suas forças ativas a trabalhar. Penso que vamos dar, em 2021, uma prova de vitalidade e de que o trabalho foi bem executado.

Desde o 25 de Abril de 1974 que o PSD tem liderado a Câmara Municipal. O PS nunca conseguiu conquistar a autarquia até ao momento. Acredita que a sua liderança poderá mudar a história do socialismo em Santa Maria da Feira?

Acredito que sim. Este é um projeto da CPC do PS a médio-longo prazo. Tomamos posse em 2020, mas é um projeto para continuar. António Costa, quando foi eleito secretário-geral do PS, tinha um projeto para uma década; pois bem, esta Comissão Política pretende seguir exatamente os mesmos passos. Pretendemos que a população do concelho reveja, no PS, a confiança e a alternativa construtiva, positiva e séria. Este projeto é composto por pessoas habilitadas e capazes para tal. Com o tempo vamos conseguir provar isso e acredito que com esta Comissão e com este projeto, a médio-longo prazo, vamos alcançar a vitória na Câmara Municipal.

Essa mesma “vitória” é um objetivo para as eleições autárquicas de 2021?

O Partido Socialista é um partido vencedor e quando entra, em quaisquer eleições, é sempre para vencer. Em 2021, vamos entrar para vencer, tendo sempre a certeza que é um projeto para continuar e esperamos que a vitória seja, naturalmente, o fim desse projeto e o início de um ainda maior – que é governar a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira.

Face ao mais recente assunto que provocou a discordância entre o PSD e o PS, solicitou a demissão do diretor-geral e do Conselho de Administração da empresa municipal, Feira Viva. O que o levou a assumir esta posição?

Antes de mais, a Feira Viva é da responsabilidade da Câmara Municipal, pelo que, quando pedimos a demissão do Conselho de Administração e do seu diretor-geral, estamos também a responsabilizar o presidente da Câmara, Emídio Sousa, pelos atos de gestão. Aliás, é o principal responsável. O que nos levou a assumir esta posição foram os resultados apresentados nos últimos anos e, essencialmente, neste ano de 2020. Comprovamos, de forma objetiva e factual, que a gestão do Feira Viva não está a ser feita de uma forma eficaz.

Assim, considera a empresa deveria de trabalhar de outra forma…

Sim, além de terem de realizar a sua tarefa pública, de cumprir com as responsabilidades e o seu dever em melhorar a qualidade de vida da população, em termos de números, não pode continuar a dar prejuízo. Assistimos, neste ano, a um investimento em mais de quatro milhões de euros. No nosso entendimento, é um valor altíssimo. A isto acrescentam-se dúvidas quanto aos atos de gestão do Conselho de Administração, principalmente no arrendamento de imóveis. Ao longo dos últimos anos, há um gasto de quase 120 mil euros anuais em arrendamento de imóveis, totalmente desnecessários. Os feirenses que façam as contas… No final do mandato de Emídio Sousa, temos milhares de euros gastos pela Feira Viva em arrendamentos que ultrapassam, em larga escala, mais de 200 mil euros. Acresce a isso a falta de criatividade e de investimento na melhoria das condições dos eventos.

Que soluções o PS propõe para melhorar essa gestão?

Os atos de gestão da Feira Viva têm de ser mais incisivos e rigorosos. Primeiro, terminar com os arrendamentos, são milhares de euros que se poupam. Segundo, a nível de contratação e adjudicações, fazer tudo de forma mais transparente e límpida com a criação de uma central de contas para que o que seja adjudicado, seja ao melhor preço possível. Terceiro, sobre os eventos, fazer um plano plurianual artístico/de gestão financeira e não tudo “ad hoc”. Ao trabalhar com as associações locais e não contratando só artistas de fora, “a peso de ouro”, iria haver um equilíbrio financeiro muito grande.

Se estas demissões acontecessem, acha que a estabilidade financeira da Feira Viva poderia retomar a “normalidade” no futuro?

Penso que sim e espero que fique claro que não tenho nada contra o diretor-geral ou o Conselho de Administração. Acredito que são pessoas que têm a capacidade, mas estão há demasiado tempo no lugar e, com as provas dadas nos últimos tempos, não correspondem com os critérios mínimos da capacidade de gestão que o PS tem em consideração. Sinceramente, não entendo qual é o drama de pedir a substituição destes. Os administradores das empresas mudam… Cria-se rotatividade, novas dinâmicas, novas formas de pensar e de executar. Neste caso, verificamos uma posição muito rígida e não entendemos o porquê.

Em resposta, os órgãos do Conselho de Administração e a direção-geral da Feira Viva acusaram-no de “ignorância” e “iliteracia” sobre os assuntos do concelho e que até propõe o fim da Viagem Medieval e de Perlim. Que leitura lhe merece esta resposta?

Lamento o comunicado da Feira Viva e fico triste com a pouca capacidade de audição de crítica e em respeitar a opinião de um partido. É uma total falsidade o que dizem e o diretor-geral e o Conselho de Administração mentem à população. É pena, porque ficam com essa marca. A nota do PS fala unicamente dos números, que não foram desmentidos, e sobre a mudança dos responsáveis da Feira Viva. Em momento algum colocamos em causa a realização dos eventos. Bem pelo contrário, quem conhece o meu percurso associativo, sabe que defendo a Viagem Medieval com “unhas e dentes” e não tenho a menor dúvida de que se o PS fosse o poder em Santa Maria da Feira, organizaria uma Viagem Medieval, um Perlim e um Imaginarius com muito maior qualidade do que os que são atualmente executados. Sentimos que há aqui uma luta pela manutenção dos seus postos de trabalho, mas mesmo defendendo o seu ganha-pão, deveriam ter um pouco mais de educação e respeito para com os partidos da oposição. Até porque o PS, em momento algum, insultou alguém, ao contrário da Feira Viva.

Na mesma semana, a Câmara aprovou um reforço do capital na Sociedade de Turismo local, um investimento, de 250 mil euros, para “salvar” as Termas de São Jorge que quase não tinham forma de pagar os salários aos seus 30 colaboradores. Acha que esta foi a melhor decisão tomada pelo Executivo-PSD com o intuito de se evitar o pior cenário?

Não, acho que tivemos uma decisão muito precipitada. O PS, através da vereação, justificou muito bem a sua posição. Não compreendemos como se transforma uma Sociedade de Turismo numa empresa municipal sem um estudo prévio, sem uma análise das consequências, sem um plano de negócios viável e um plano previsional de investimentos. Não existe uma rúbrica de investimentos e nem se prevê nenhum investimento nesta empresa municipal entre 2021 a 2025… Verifica-se que isto foi feito porque tinha de ser, senão ia para insolvência.

Esses investimentos que agora refere podiam ter sido aplicados anteriormente…

A Câmara é a principal responsável pelo estado atual da Sociedade de Turismo. Não houve a requalificação do espaço envolvente às Termas e já há muito tempo que era necessária a intervenção e dinheiro público em toda esta zona. A autarquia também não estudou, de forma profunda, uma eventual fusão ou incorporação com a Feira Viva, ao invés disso vão criar uma nova empresa municipal… Não houve capacidade criativa e de reinvenção do negócio, apenas se verificou a continuidade dos termalistas normais e não se tentou captar novos clientes. E há também a postura do facilitismo: a Câmara estava à espera que aparecesse um “homem do dinheiro” ou de um grupo que construísse um hotel e tinha o assunto resolvido. Sabemos que isto é um pouco a política da autarquia e do presidente da Câmara. Está sempre à espera do investimento privado, basta verificar as rotundas construídas e temos a certeza disso mesmo. Sobre as Termas, isto foi apenas o tentar empurrar o problema para a frente, mas, mais tarde ou mais cedo, a Câmara vai ter uma situação muito difícil de decidir.

No período pandémico, o Município assumiu uma posição de prevenção e de salvaguarda dos seus cidadãos com a implementação e criação de diversas ações. Considera que essas medidas foram de encontro à urgência da situação?

Nesta situação, o PS esteve muito bem e, antes de a Câmara anunciar as medidas, enviamos um conjunto de iniciativas importantes para que fossem aplicadas, desde a criação das linhas telefónicas de apoio até à redução do preço da tarifa de água a negociar com a INDAQUA. O PS teve uma conduta construtiva e positiva nas iniciativas, às quais, muitas delas, por outras palavras, foram aplicadas pela Câmara. Em situação de pandemia, temos que trabalhar em parceria e não fazer crítica política. Penso que tanto a autarquia, como o PS e os restantes partidos deram um bom exemplo de como conseguiram conjugar algumas medidas. A análise que eu faço é que a Câmara deu o melhor que poderia dar para ajudar as famílias.

Acha que ainda faz sentido a redução da tarifa da água, tal como defendeu na altura do período de Estado de Emergência?

Essa é uma questão complicada, pois a Câmara não está a ter uma posição reivindicativa junto da empresa. O PS acha que esta passividade é muita e assiste-se, nas Reuniões de Câmara e nas Assembleias Municipais, o presidente da Câmara a utilizar argumentos como se fosse o presidente do Conselho de Administração da INDAQUA. Tem que inverter posições e ser mais exigente. Mas sim, há condições para a redução da tarifa e devia ser aplicada de forma mais generalista e universal às famílias que possam beneficiar disto. No entanto, não há grande vontade por parte da empresa ou da autarquia.

Antes do decreto do Estado de Emergência, o PS agendou uma conferência de imprensa relativa à P. Parques que foi cancelada no próprio dia. Que assuntos iam ser abordados nessa intervenção?

O assunto da P. Parques ainda está bem vivo e acreditamos que vai ter desenvolvimentos no futuro. A marcação dessa conferência de imprensa ia servir para esclarecer a população de que a Câmara não tem justificação, nem apresenta provas reais do que a levou a perdoar meio milhão de euros. E, não apresenta provas de que interpelou sempre a P. Parques quanto aos incumprimentos sucessivos, nem se esta pagou ou não com os juros. Aliás, temos uma vereadora a dizer uma coisa e o presidente da Câmara a dizer outra… Ou seja, há um conjunto de “não-respostas” que suscitam um clima de perturbação política, o que leva a entender que houve um ato de gestão da Câmara, e do seu presidente, que prejudicaram de forma direta o concelho e ajudaram, do nosso ponto de vista, uma empresa – sem justificação para isso. A Câmara não marcou a reunião extraordinária solicitada pelo PS para o esclarecimento de muitas dúvidas. As regras democráticas de funcionamento dos organismos políticos não foram respeitadas pelo presidente, Emídio Sousa, nomeadamente nas Reuniões de Câmara. Assistiu-se a uma postura muito autoritária, muito ditatorial de sua parte, onde tentou fugir à reunião extraordinária, sem apresentar os documentos e sem justificar os feirenses. A informação que temos é dos valores contabilísticos pagos pela empresa, mas é uma informação muito redutora e escassa.