“Pretendemos honrar um legado que muito nos orgulha”

A Joaquim Ribeiro de Sousa, S.A., é uma empresa situada a norte de Santa Maria da Feira, com sede na freguesia de Lourosa, junto à Estrada Nacional n.º 1, fundada em 1969 por Joaquim Ribeiro de Sousa e Maria Emília Ferreira de Sousa. O administrador e filho do fundador, Olímpio Ribeiro, deu a conhecer a história desta entidade dedicada ao ramo da siderurgia, através do seu armazém onde comercializa diversos tipos de ferro e metais. Após a revolução do 25 de Abril, aponta um exponencial crescimento dos negócios e desenvolvimento empresarial fomentado pelos seus pais. Com 51 anos de atividade ininterrupta, Olímpio Ribeiro admite que o seu objetivo primordial é o de honrar o “bom e enorme” legado que os seus pais deixaram e não esquece também a importância dos seus clientes – relação que pretende solidificar cada vez mais.

De forma a conhecer a história desta empresa, como surgiu a ideia para a sua criação?

Bom, a empresa não foi logo empresa. Primeiramente, foi um ramo de negócio e passado cerca de meia dúzia de anos o meu pai constituiu a sociedade com os filhos. No entanto, o negócio teve variações, mas tudo começou em 1969 em casa dos meus pais. Estivemos lá durante 10 anos sendo que, em 1979, mudamo-nos para estas atuais instalações.

Nesse sentido, como se desenvolveu inicialmente este ramo de negócio?

O meu pai quando se casou tinha uma vontade imensa de singrar na vida e a minha mãe foi também a cara-metade que ele, de facto, precisava para todo o seu trajeto de vida, enquanto marido, comerciante e pai. Casaram-se em 1953, chegou a emigrar para a Venezuela e esteve lá 28 meses. Como o meu pai era uma pessoa determinada e arrojada, surgiram-lhe alguns negócios, mas ele teve que fazer uma opção de vida: ou a sua mãe e a sua irmã iam para a Venezuela, ou ele voltava a Portugal… Acabou por regressar, comprou uma camioneta e fazia serviço de aluguer, onde estava muito ligado ao setor da cortiça. Muitas vezes levava mercadoria para exportação e ia para Lisboa ou Leixões. Quando chegava a Lisboa deparava-se com muitos “tempos-mortos”, de espera, e muitas vezes não tinha carga para voltar. Começou a estabelecer alguns contactos por lá e sugeriram-lhe investir no ramo da sucata. Foi aí que se desencadeou o negócio: começou por comprar umas sucatas, alguns ferros-velhos e começou a trazer para a sua residência.

Depois de surgir essa oportunidade, como se desenvolveu o negócio até se constituir como empresa?

Uma vez que a casa dos meus pais se encontrava em frente à EN1, esta era a estrada principal onde passavam muitas pessoas. Com a descarga de montes de sucata, passado alguns dias a minha mãe vendeu tudo, assumiu o papel de negociante e ganhava entre cinco a dez vezes mais do que o preço que tinha comprado; daí começou a crescer o “bichinho” do negócio. Isto foi progredindo e o meu pai constituiu a sociedade com os filhos e, entretanto, começou a comprar ferro novo em alguns armazéns de Lisboa. O horizonte dele era tentar entrar na siderurgia nacional e batalhou por isso. Teve uma grande ajuda do seu amigo, o senhor comendador Fernando Pinto Teixeira, que o auxiliou a entrar neste setor. Acompanhamos a revolução do 25 de Abril e isso foi uma época de ouro – não ganhávamos dinheiro, juntávamos dinheiro, foram épocas fantásticas.

Portanto, existiram alguns processos até se estabelecerem nestas instalações…

Sim, em 1976 fizemos um armazém perto da casa do meu pai, mas, em pouco tempo, tornou-se pequeno, porque começamos a ter uma carteira de clientes assinalável. O meu pai reuniu a família (a minha mãe e os meus três irmãos) e disse-nos que já tinha o suficiente para ele e para a minha mãe. Agora, estava era preocupado com o futuro dos filhos e disse que havia um caminho a seguir: tentar progredir e ter negócio para estarmos todos aqui; caso contrário não sabia o que fazer… Disse-nos que se tivéssemos de acordo, iria tratar de comprar um terreno para acompanhar o fluxo da população que vinha de Arouca para o Porto, e nós concordamos. Por isso, conseguiu comprar o principal terreno que lhe interessava e, posteriormente, comprou-se outra parcela para permitir o crescimento da empresa.

Esta relação da família com os negócios decorreu sempre com normalidade?

Sim, o meu pai exponenciou muito o negócio e os filhos contribuíram e colaboraram. Temos ainda uma imobiliária que continua a existir. A empresa do meu pai foi a que mais construiu em Lourosa na década de 90 e na primeira década deste século com a construção de diversos edifícios e moradias pela freguesia.

Duma forma geral, que balanço faz sobre estes 51 anos de existência?

O que posso dizer, sucintamente, é que a nossa razão de ser e de estar aqui deve-se a todo o empenho que tivemos e também pela relação de confiança imensa com os nossos clientes. A relação do fornecedor-cliente é pautada por algumas divergências, que fazem parte do processo dos negócios, mas, de grosso modo, se estamos aqui há 51 anos é porque há uma grande química e simbiose entre ambas as partes.

Na sua opinião, quais são as principais características que marcam a diferença?

Considero que a relação pautada pela elevação, pela transparência, pela prontidão, pela eficácia do serviço e, acima de tudo, pela confiança, tem que existir. Desde que nos mudamos para cá, desde o primeiro dia, começamos a gozar férias na segunda quinzena de agosto. O que temos verificado, ao longo dos tempos, é que temos muitos clientes a articular as suas férias com as nossas, ou seja há montes de pessoas à espera que retomemos a nossa atividade e isso, no fundo, conforta-nos bastante. Os clientes olham-nos com a mesma vontade com que olhámos para eles. Nós precisamos dos clientes e eles precisam de fornecedores como nós e isso é uma prova de gratidão. É algo que nos orgulha de certa forma.

Qual é o principal destino dos produtos que comercializam?

Trabalhamos apenas para o mercado interno. Esporadicamente, já fizemos exportações para as ilhas, tanto para os Açores, como para a Madeira, e já fomos abordados para um possível negócio com a Guiné Conakry, mas não se concretizou. Por outro lado, importamos de vários países do espaço Schengen, como Espanha, França, Itália, Luxemburgo, Turquia e Suíça.

Que tipos de artigos têm maior procura e em que setores é que são aplicados?

Somos um armazém de fero, mas temos uma gama enormíssima de produtos. Temos cerca de 700 artigos diferentes, algo que num armazém é extraordinário. Posso até dizer que grandes armazéns, se calhar não tem tanta exposição de artigos como nós. Tentamos sempre ter uma gama diversificada de produtos e, tal como dizia o meu saudoso pai, “o material tem que esperar pelo cliente, não é o cliente que tem de esperar pelo material”. Vendemos para a área da construção, para a serralharia e indústria metalomecânica e tentamos ter sempre o serviço mais eficaz para que os clientes saiam satisfeitos. A maior parte do que vendemos é para a construção, mas, dada a variedade do material que temos, isso permite uma versatilidade imensa no seio das várias áreas relacionadas com construção.

Relativamente ao constrangimento causado pela pandemia de Covid-19, de que forma é que a sua empresa se adaptou?

Logo que foi decretado o Estado de Emergência, encerramos as instalações durante dez dias. Depois fomos verificando que a nossa atividade não representava um risco grande de contágio e vários colegas armazenistas não suspenderam a sua atividade. Como somos apenas sete colaboradores e as instalações são amplas, optamos por reunir todas as medidas preventivas recomendadas pela Direção-Geral da Saúde e continuar a operar.

No que concerne ao nível económico, assinalam algum impacto causado pelo confinamento e pela “suspensão” de várias atividades?

Em boa verdade, para já, ainda não sentimos. No entanto, estou muito apreensivo, porque noto que as pessoas estão preocupadas. Fala-se muito do ócio e em criar facilitismos nesse sentido. Em contrapartida, assistimos a uma taxa de desemprego assustadora e penso que se andarmos para trás, como o caso de Lisboa, e voltarmos a um confinamento em que as atividades paralisaram, isso será assustador. O paradigma do negócio sofreu muitas mutações e acho que ainda só estamos a ver a ponta do iceberg. A economia vai-se ressentir, até à data não sofremos muito, mas estou muito apreensivo com o futuro.

Existe algum plano traçado para o futuro da empresa?

Bom, como se diz na gíria, “o futuro a Deus pertence”… Isto é uma sociedade minha e dos meus irmãos e, pessoalmente, eu não sei fazer mais nada. Enquanto tiver força e saúde, e ninguém me obstruir o caminho, a relação e o funcionamento da empresa com os clientes irá continuar tal como o bom e enorme legado que os meus pais deixaram.

Por fim, que apelo gostaria de deixar aos seus potenciais clientes e população?

Pretendemos seguir o nosso trajeto e honrar um legado que muito nos orgulha. Os meus pais são os mentores de tudo isto e espero que a relação com os clientes se solidifique cada vez mais. É graças a eles que nós estamos aqui.