Opinião: “As grandes epidemias da História”

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Ao longo da História da Humanidade, um elevado número de epidemias assolou Nações e Povos, dizimando populações inteiras, limitando o crescimento demográfico, e mudando, muitas vezes, o curso da História.
Estas epidemias foram genericamente designadas de peste, embora muitas delas não tenham sido causadas pelo bacilo da peste (Yersinia pestis) e fossem, possivelmente, epidemias de varíola, tifo, cólera, malária ou febre tifoide.
Provavelmente a primeira notícia sobre a peste bubónica seja a descrição que se encontra na Bíblia sobre a praga que acometeu os filisteus, quando estes roubaram aos hebreus a Arca da Aliança e foram castigados
com uma praga (Samuel 1:6.9). Com receio, os filisteus após consultaram os sacerdotes e adivinhos, decidiram então, devolver Arca, acrescentando a oferta de 5 ratos de ouro e 5 bubões e ouro. ” (Samuel 1:6.5). Porém o povo hebreu foi também vitimado pela peste após receberem a arca de volta. (Samuel 1:6.19).

Uma curiosidade que devemos de levar em linha de conta é que estes povos antigos estabeleceram uma ligação entre os ratos e a peste; por isso se entende a devolução por parte dos filisteus constituída de bubões e de ratos. Esta ligação já tinha sido referida em textos antigos da medicina hindu (Susruta, 1000 d.C.)
Assim e neste artigo, gostaríamos de abordar as maiores epidemias, registradas pelos historiadores e contemporâneos, nomeadamente peste de Atenas, a peste de Siracusa, a peste Antonina, a peste do século III, a peste Justiniana e a Peste Negra do século XIV. No interregno entre as citadas epidemias, outras de menor vulto foram registradas:

        Peste de Atenas

        A peste de Atenas ocorreu em 428 a.C. e foi descrita por Tucídides, no livro “A guerra do Peloponeso”. O relato que deixou da epidemia é tão rico de informações que merece ser conhecido no texto original.

Atentemos nalgumas passagens:
No começo do verão, os Peloponesos e os seus aliados invadiram o território da Ática… Poucos dias depois, sobreveio aos atenienses uma terrível epidemia, a qual atacou primeiro a cidade de Lemos e outros lugares. Jamais se vira em parte alguma coisa semelhante e vítimas tão numerosas; os médicos nada podiam fazer, pois de princípio desconheciam a natureza da enfermidade e além disso foram os primeiros a ter contato com os doentes e morreram primeiro. A ciência humana mostrou-se incapaz; fizeram-se orações em vão nos templos e dirigiam-se preces aos oráculos. Finalmente, tudo foi renunciado ante a força da epidemia…”
Em geral, o indivíduo no gozo de perfeita saúde via-se subitamente com os seguintes sintomas: em primeiro lugar violenta dor de cabeça; os olhos ficavam vermelhos e inflamados; a língua e a faringe assumiam aspeto sanguinolento; a respiração tornava-se irregular e o hálito fétido. Seguiam-se espirros e rouquidão. Pouco depois a dor localizava-se no peito, acompanhada de tosse violenta; quando atingia o estômago, provocava náuseas e vómitos com regurgitação da bílis. Quase todos os doentes eram acometidos por crises de soluços e convulsões de intensidade variável, dependendo dos casos. A pele não se mostrava muito quente ao tato nem lívida, mas avermelhada e cheia de erupções com o formato de pequenas empolas (pústulas) e feridas. O calor intenso era de tal forma elevada que o simples contato coma roupa se tornava intolerável. Os doentes ficavam despidos e somente desejavam atirar-se na água fria, o que muitos faziam…”. “A maior parte morria ao fim de 7 a 9 dias consumida pelo fogo interior. Nos que ultrapassavam aquele termo, o mal descia aos intestinos, provocando ulcerações acompanhadas de diarreia rebelde que os levava à morte por fraqueza”.
        “A enfermidade desconhecida castigava com tal violência que desconcertava a natureza humana. Os pássaros e os animais carnívoros não tocavam nos cadáveres apesar da infinidade deles que ficavam sem sepultura. Se algum tocavam nos corpos, caía morto”.
“Nenhum temperamento, robusto ou débil, resistiu à enfermidade. Todos adoeciam, qualquer que fosse o regime adotado. O mais grave era o desespero que se apossava da pessoa ao sentir-se atacado: imediatamente perdia a esperança e, em lugar de resistir, entregava-se inteiramente. Contaminavam-se mutuamente e morriam como rebanhos”.
        As consequências da peste foram desastrosas para Atenas. Uma das vítimas da epidemia foi Péricles, extraordinário estadista, em cujo governo a civilização grega atingiu o seu apogeu.

        Peste de Siracusa

      A Peste de Siracusa apareceu em 396 A.C., quando o exército cartaginês sitiou Siracusa, na Itália. A doença surgiu entre os soldados, espalhando-se rapidamente entre eles, dizimando o exército.

Manifestava-se inicialmente com sintomas respiratórios, febre, tumefação do pescoço, dores nas costas. A seguir vinha a disenteria e a erupção pustulosa em toda a superfície do corpo.

Os soldados morriam entre o quarto e o sexto dia, com delírio e sofrimentos atrozes. Desta epidemia, o principal beneficiário foi o Império Romano, porque facilmente dizimou o exército opositor de Cartago.

        Peste Antonina

        A Peste Antonina surgiu no século II d.C., aquando da governação do Império Romano pelo Imperador Marco Aurélio, da linhagem dos antoninos.

Uma das vítimas da peste Antonina foi precisamente o Imperador, Marco Aurélio. Causou grande devastação à cidade de Roma e estendeu-se a toda a Itália e à Gália (França). Foi contemporânea de Galeno, que descreveu os sintomas apresentados pelos doentes: “Ardor inflamatório nos olhos; vermelhidão sui generis da cavidade bucal e da língua; aversão pelos alimentos; sede inextinguível; temperatura exterior normal, contrastando com a sensação de abrasamento interior; pele avermelhada e húmida; tosse violenta e rouquidão; sinais de flegmasia laringobrônquica; fetidez do hálito; erupção geral de pústulas, seguida de ulcerações; inflamação da mucosa intestinal; vómitos de matérias biliosas; diarreia da mesma natureza, esgotando as forças; gangrenas parciais e separação espontânea dos órgãos mortificados; perturbações variadas das faculdades intelectuais; delírio tranquilo ou furioso e término funesto do sétimo ao nono dia”.
        A peste do século III

A peste do século III teve a sua origem no Egito, espalhou-se rapidamente pelo Grécia e pela Itália, devastando o Império Romano. São Cipriano, bispo de Cartago, deixou a seguinte descrição da doença: “Iniciava-se por um fluxo de ventre que esgotava as forças. Os doentes queixavam-se de calor interno intolerável. Logo declarava-se angina dolorosa; vómitos acompanhados de dores nas entranhas; os olhos injetados de sangue. Em muitos doentes, os pés ou outras partes eram atingidos pela gangrena. Alquebrados, os infelizes atingiam um estado de fraqueza, que lhes tornava a marcha vacilante. Uns perdiam a audição, e outros a visão. Em Roma e em certas cidades da Grécia, morriam até 5.000 pessoas por dia”.

        Peste justiniana

        A peste justiniana apareceu no Império bizantino, ao tempo do Imperador Justiniano, no ano de 542 d.C., e espalhou-se pelos países asiáticos e europeus, porém não teve a importância da grande epidemia do século XI V, a Peste Negra.
O pouco que se sabe sobre esta peste deve-se ao relato de Procopius, um arquivista do Império. A peste justiniana, entretanto, segundo o historiador inglês F. Cartwright, foi causada pelo bacilo Yersinia pestis, em três formas clínicas: pulmonar, septicémica e bubónica.

No entanto a sua consequência fora terrível, uma vez que ao atingir Constantinopla, capital do Império (hoje Istambul), no ano de 542, chegou a causar cerca de 10.000 mortes por dia.

        Peste Negra do século XIV

A Peste Negra foi a maior, a mais trágica epidemia que a História registra, tendo produzido um morticínio sem paralelo. Foi chamada peste negra devido às manchas escuras que apareciam na pele dos enfermos. Como em outras epidemias, teve início na Ásia Central, espalhando-se por via terrestre e marítima em todas as direções… Na sua caminhada devastadora, semeou a desolação e a morte nos campos e nas cidades, uma vez que povoados inteiros transformaram-se em cemitérios. Calcula-se que a Europa tenha perdido metade de sua população.

Esta epidemia inspirou o livro Decameron, de Giovanni Bocaccio, que viveu entre 1313 e 1375. As cenas descritas no prólogo do livro passam-se em Florença, na Itália. Vejamos alguns trechos:
        “A peste, atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais. Incansável, foi de um lugar para outro, e estendeu-se de forma miserável para o Ocidente”. “Nenhuma prevenção foi válida, nem valeu a pena qualquer providência dos homens”.
Bocaccio também descreve os sintomas: “
Apareciam, no começo, tanto nos homens como nas mulheres, ou na virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões. Em seguida o aspeto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas de cor negra ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e noutros lugares do corpo. Nalgumas pessoas as manchas apareciam grandes e esparsas; noutras eram pequenas e abundantes. E, do mesmo modo como no princípio, em que o bubão fora e ainda era indício inevitável de morte, também as manchas passaram a ser mortais”.
O autor descreve em seguida, a situação de caos que se instalou na cidade:
        “Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a autoridade das leis, quer divinas quer humanas desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto outros homens, estavam mortos, ou doentes, ou tinham perdido os seus familiares e assim não podiam exercer nenhuma função. Em consequência de tal situação permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse”.
Uma das maiores dificuldades era enterrar os mortos:
        “Para dar sepultura a grande quantidade de corpos já não era suficiente a terra sagrada junto às Igrejas; por isso passaram-se a edificar Igrejas nos cemitérios; punham-se nessas Igrejas, às centenas, os cadáveres que iam chegando; e eles eram empilhados como as mercadorias nos navios”.
Durante a epidemia, o povo, desesperado, procurava uma explicação para a calamidade. Para alguns tratava-se de castigo divino, punição dos pecados, aproximação do Apocalipse, recorrendo a tudo quanto pudessem para a Salvação.

Não querendo ser alarmista, a História repete.se, e a Humanidade nunca está preparada para as epidemias, que de quando em vez surgem…, sendo que não querendo parecer catastrofista, isto ainda vai no princípio…alertando para a necessidade de nos precavermos, antes de entrarem em vigor outras medidas, nomeadamente o Estado de Sítio…

Roberto Carlos Reis,

Técnico Superior de História – Câmara Municipal de Santa Maria da Feira. Professor Universitário – Instituto Universitário da Maia