“A alegria de Cristo vivo e ressuscitado, presente na minha vida, é a principal motivação do meu ministério sacerdotal”

Vítor Pacheco, pároco da Paróquia de São Cristóvão de Ovar, em entrevista

Quando percebeu que esta era a sua vocação?

Desde jovem participei na minha paróquia em diversos serviços: acólito, catequista, leitor e equipa da animação. Este sentido de serviço na Igreja foi despertando em mim o apelo a uma maior entrega a Deus. Paulatinamente, fui percebendo, ora com certezas ora com dúvidas, o que Deus queria para mim.

Como foi o seu percurso até chegar ao Seminário?

Durante muitos anos, fui missionário como leigo consagrado e, nesse sentido, estive em missão em diversos continentes. Foi uma experiência enriquecedora, no sentido de conhecer a realidade da Igreja em variados contextos e que me ajudou a perceber em meio à missão que desenvolvia que Deus continuava a chamar-me para uma entrega ainda mais radical, que era o sacerdócio. Assim, coloquei um ponto final a esse percurso e entrei para o Seminário Maior do Porto, afim de fazer o percurso formativo que a diocese propõe para aqueles que querem abraçar a vida sacerdotal.

Que significado tem, na sua vida, ser padre?

Jesus, o Sumo Sacerdote, quis que alguns homens participassem com Ele neste ministério de serviço ao Povo de Deus. Nesse sentido, ser padre para mim é sobretudo um prolongamento daquela que foi a missão de Jesus: anunciar a Boa Nova, celebrar os Sacramentos e ser sinal da Misericórdia de Deus.

Quais os desafios que encontrou ao longo da sua vida enquanto padre?

Diria que o maior desafio é corresponder à missão recebida. Sinto-me muitas vezes pequeno diante da enormidade do Dom recebido. Os outros desafios, que apelidaria dos desafios do dia a dia, esses com a colaboração de tantos, vão se enfrentando com serenidade e paciência.

Em que paróquias prestou serviço?

Fiz o meu estágio na paróquia de Grijó pelo período de três anos e após a minha ordenação sacerdotal fui nomeado para as paróquias de S. Vicente de Pereira e de S. João de Ovar, ambas no concelho de Ovar. Servi essas duas comunidades pelo período de sete anos até à mais recente nomeação, que foi para pároco de Ovar.

Assumiu a administração da Paróquia de São Cristóvão de Ovar a 4 de novembro de 2020. Como descreve a sua relação com os paroquianos?

Nos inícios de novembro, o pároco de então, o Pe. Manuel Pires Bastos, ficou enfermo e infelizmente viria a falecer vítima de Covid-19. Na altura fui nomeado como administrador, acumulando com as paróquias onde já vinha exercendo o meu ministério e sabia que ficaria como administrador até julho, altura em que o Bispo nomearia alguém para Ovar e eu retomaria a minha “vida” anterior. Entretanto, um pouco antes das nomeações, o Bispo achou que era melhor eu ficar em Ovar e assim em julho passado fui nomeado pároco. O facto de ter estado quase um ano como administrador possibilitou que conhecesse melhor a realidade paroquial e, por outro lado, aquando da nomeação ao ser o escolhido os fieis já me conheciam. Eu sempre me pautei, dada a minha natureza, por ser uma pessoa acessível e equitativa com todos. Não faço distinções entre pobres e ricos, cultos e gente simples. Sem esquecer que fui ordenado sacerdote pela Igreja, procuro estar presente na vida da sociedade, nas suas instituições e associações.

Como descreve a Igreja atualmente?

A igreja é esta instituição divina que atravessa os séculos procurando ser fiel a Jesus que a fundou. Feita de homens e mulheres é sempre permeada pelos usos, costumes, virtudes e vícios de cada época. A Igreja sempre teve a capacidade de se adaptar às realidades dos tempos e de levar o anúncio de Cristo a todos os Homens. Também como instituição humana vai sofrendo com os pecados dos seus membros e daí a necessidade da constante conversão e purificação. Nesse sentido, é uma bênção para a Igreja a missão que o Papa Francisco quer levar a cabo, no sentido de provocar a reflexão acerca da sua essência e missão no mundo. Os escândalos demonstram que não basta afirmarmos sermos cristãos e que praticamos este ou aquele rito ou devoção. Sermos fiéis a Cristo é uma chamada pessoal e comunitária constante. Por outro lado, vemos como a Igreja, ainda que abalada por escândalos, vai crescendo no mundo, pois a força de atração de Jesus é maior do que as nossas fraquezas.

Quais os desafios que a Igreja teve que enfrentar com a chegada da pandemia?

A pandemia foi e continua a ser uma grande provação para a humanidade. E como tal, a Igreja não fica imune a esse fenómeno. Penso que a pandemia deixou claro para todos o quanto a nossa civilização é frágil, como de repente tudo para. Com isto, também a Igreja reflete e procura diante deste desafio, adaptar-se a encontrar novas formas de continuar a sua missão.

O que é que o marcou mais ao longo destes anos de sacerdócio?

Ainda tenho poucos anos como sacerdote e nesse sentido não tenho um grande espólio de história para contar. O que tenho, isso sim, são inúmeros testemunhos de generosidade de tantos cristãos. Seja pela forma como estão na sua vida familiar e profissional, seja pela disponibilidade do seu tempo a algum serviço na Igreja. Há muitas pessoas que dão um tremendo testemunho de fé e isso é realmente algo que marca e que muito contribui também para a minha educação na fé.

Passou mais de um ano desde que assumiu a administração da Paróquia de São Cristóvão de Ovar. Qual o balanço que faz?

Dado a minha personalidade e a profunda convicção dos meus ideais de fé, não ando com barómetro a medir o grau de aceitação ou a mesurar os meus “feitos”. Sabia desde o início que vir para esta paróquia seria um grande desafio devido a uma série de circunstâncias em que esta se encontrava. Tendo consagrado a minha vida a Deus no serviço ao Povo de Deus, aceitei em espírito de obediência a decisão do meu bispo. A paróquia de Ovar existe há muitos séculos e sempre foi servida por dedicados párocos. Cada um no seu tempo procurou responder às exigências do momento. Neste início de terceiro milénio, cabe-me a mim e aos cristãos desta comunidade estar atento aos sinais dos tempos, para assim responder aos impulsos do Espírito, para continuarmos a missão de anunciar a Jesus, o Filho de Deus e estarmos disponíveis para os Homens de hoje nas suas necessidades espirituais e materiais.

Que mensagem quer transmitir às pessoas?

Primeiro dizer-lhes que a alegria de Cristo vivo e ressuscitado, presente na minha vida, é a principal motivação do meu ministério sacerdotal. Segundo que estou cá para juntos fazermos caminho de Igreja e abertos ao mundo sermos para usar as palavras do Papa Francisco: «um oásis no deserto», isto é, uma igreja aberta e acolhedora, que tem capacidade para sarar as feridas humanas e assim redescobrirmos a riqueza de termos a Cristo na nossa vida.