A 8 de julho, Esmoriz é a porta mágica de entrada para uma rave de música techno com alguns dos melhores DJs e produtores nacionais e internacionais: o Sound Waves. Começou em 2005, em São Pedro de Moel (Marinha Grande), e desde então tem crescido e atraído públicos de latitudes cada vez mais distintas. O N falou com Bernardo Bernardes, um dos promotores do festival, a par de Wilson Neves. Falamos sobre a história do evento, as apostas do cartaz deste ano (que procura chegar a um público mais jovem), assim como de uma retrospectiva ao techno em Portugal.
O que é que os fãs podem esperar da edição deste ano?
É o 18º aniversário do Sound Waves. Os fãs podem esperar um evento repleto de boas energias e de boa música. Este ano tivemos uma abordagem um bocadinho diferente: apesar de no ano passado termos tido dois palcos e este ano apenas um, investimos mais em artistas internacionais emergentes, que neste momento são tendências no techno. Nunca tivemos um cartaz com artistas tão emergentes.
O festival não começou por se realizar em Esmoriz. Como se chegou a este local?
Toda a gente que organizava o evento era daqui da zona. Após uma conversa com o presidente da Junta de Esmoriz (que era amigo do Wilson), surgiu a oportunidade de trazer o evento para aqui. Em termos de logística, organização e contactos, era mais fácil para nós. Sentimos que Esmoriz tem todas as capacidades para receber um evento deste género: é uma cidade costeira, fica relativamente perto do Porto e está bastante desenvolvida ao nível da hotelaria e restauração.
O Sound Waves procura precisamente fugir à concentração de eventos no Porto.
Para nós, é importante que, daqui a muitos anos, se fores falar com uma pessoa ligada ao movimento underground sobre o Sound Waves, essa pessoa o associe à cidade de Esmoriz.
Em 2017, o festival deu um salto no investimento, trazendo artistas de renome na cena techno europeia como a Deborah de Luca ou o Marco Bailey. Porquê este momento para mudar o alinhamento?
O evento começou em 2005 e desde então tem crescido sempre. Quando nos mudámos para Esmoriz, começamos por realizá-lo na Praia de Ancoradouro. Tornou-se um recinto bastante pequeno para a dimensão do festival, além de ser próximo de apartamentos, o que incomodava os residentes. Quando o festival passou para as imediações do Estádio da Barrinha a exigência tornou-se maior: o cartaz teve de ser adequado à dimensão do recinto. É nesse momento que o festival explode e começa a ter mais nomes internacionais.
“Apesar de sermos completamente legais, queremos recriar o espírito underground: não é música que passa na rádio, que as pessoas cantem ou para atrair mulheres bonitas.”
Qual é o público-alvo pensado para o festival, em termos de idade e origem geográfica?
Esperamos um público multicultural: vamos ter presentes 20 nacionalidades e pessoas provenientes de todos os continentes. Em comparação com outras edições, esperamos um público mais jovem, porque acreditamos que o techno está a tornar-se uma tendência: os jovens começam a ouvir techno numa idade cada vez mais precoce.
Qual é a relação com a Junta, a Câmara e a comunidade local?
Temos o apoio da Câmara, da Junta e do Vereador [da Cultura], Alexandre Rosas. Em relação aos esmorizenses, sentimos que ainda não os apaixonamos pelo evento. No entanto, o impacto social e económico que traz à cidade é enorme. Compreendo que o techno é um nicho de mercado, mas os benefícios económicos colocam Esmoriz no mapa. Mencionamos sempre a cidade que nos acolhe em toda a comunicação do festival.

Em relação ao cartaz, pareceu que a organização aproveitou o interregno da pandemia para alterar um pouco a disposição, assim como o subgénero de techno mais predominante: o techno industrial. Consideram que é a nova tendência dentro do techno?
No ano passado apostamos num techno mais eclético, apesar de termos tido dois nomes fortes do hard techno: o SNTS e o Klangkuenstler (que infelizmente acabou por não estar presente devido às greves na aviação na Alemanha). Este ano, sentimos que o techno começou a ser consumido por um público mais jovem, e também sentimos que as pessoas deixaram de ouvir o techno de Detroit para passar a ouvir um techno mais agressivo, industrial e psicadélico. Viajo bastante para me colocar a par das preferências do público.
A que conclusões chegou dessas viagens a festivais de outros países e continentes?
Concluí que a tendência atual do underground é o hard techno: com mais BPM’s [sigla anglófona para ‘batidas por minuto’] e mais intensidade.
“Não queiram fazer do techno uma música para todos.”
Apesar de serem de diferente dimensão, são inevitáveis as comparações com o Neopop. Se no ano passado o cartaz parecia contrapor a uma lógica mais comercial do Neopop, este ano os nomes já parecem escolhas mais seguras. O caminho do Sound Waves é descobrir talento ou acompanhar as tendências internacionais?
O Neopop é uma referência na música eletrónica a nível mundial: não nos podemos equiparar. Nós somos uma rave de 21 horas, o Neopop é um festival de vários dias. No ano passado, efetivamente, havia mais similaridades com o Neopop. Este ano alteramos, não por causa disso, mas porque sentimos a necessidade de uma mudança. Procuramos estar sempre dentro das tendências do underground: um negócio que estagna, é um negócio que morre. No entanto, não queremos fugir ao nosso ADN: uma rave old school atualizada para os tempos modernos – com mais conforto e mais segurança. No início das raves, no Reino Unido nos anos 80, algumas festas foram proibidas. Nos Estados Unidos, houve revoluções assentes na música eletrónica. Apesar de sermos completamente legais, queremos recriar o espírito underground: não é música que passa na rádio, que as pessoas cantem ou para atrair mulheres bonitas. É muito mais perigoso ir a uma discoteca que passa música latina do que a uma rave.
Como é que se conjuga a atração de novos públicos com a filtragem natural que o techno faz?
Quem for ao festival e não for apreciador, vai sentir-se desconfortável, e logo por aí há uma filtragem. O techno é uma tendência na Europa: as pessoas movem-se para Portugal porque é um dos países mais visitados da Europa, com um turismo cada vez mais desenvolvido e, além disso, é um país barato (e o norte mais ainda) para visitar.
Recentemente começaram a fazer eventos ambulatórios no Hard Club, tal como o Neopop faz com as Neopop presents ao longo do ano. O que é que isto diz sobre a estratégia do Sound Waves?
Queremos que as pessoas sintam a energia do Sound Waves mais do que uma vez por ano, não só em Esmoriz e, provavelmente, não só no Porto. De momento não posso adiantar mais.
Qual é a análise que faz da cena techno em Portugal neste momento? O que pode ser melhorado?
O techno está muito forte em Portugal. É um género com cada vez mais apoiantes. Neste momento, de norte a sul do país, há eventos de techno todas as semanas. Dentro da música eletrónica, é o género que está a crescer mais. No entanto, como promotor, receio que haja uma saturação do mercado em que toda a gente aposta na mesma fórmula: nesse momento a magia perde-se. Desde o início da sua existência, o techno foi sempre underground. Pela primeira vez na história, está a tornar-se mainstream, e isso assusta-me um bocadinho. Para as promotoras, agentes e artistas, o mainstream permite capitalizar mais, mas é difícil gerir a vida da indústria quando a moda passa. O tempo de vida do mainstream é curto. Não queiram fazer do techno uma música para todos. Dou um exemplo: a Afterlife [promotora de eventos fundada em 2016 pelo duo italiano Tale of Us] redimensionou o techno melódico para outro patamar, mas neste momento, a Afterlife não é música. Muitas pessoas vão aos eventos para dizer que foram, tirar fotografias, fazer vídeos ou vestir as roupas da moda: o visual passou a contar mais que a própria música. A música sempre me entrou pelos ouvidos, nunca pelos olhos.











